Presidente argentina defende seu mandato e pede fim de bloqueio de estradas

Carlos Werd Buenos Aires, 1 abr (EFE).- A presidente da Argentina, Cristina Fernández de Kirchner, fez hoje uma dura defesa do mandato democrático conferido a ela pelas urnas e pediu aos produtores rurais que liberem as estradas bloqueadas há 20 dias, em um ato em massa que supôs uma nova demonstração de poder frente ao campo.

EFE |

Cristina relacionou "um passado que parece querer voltar" às entidades agropecuárias que seguem com a greve comercial e convocou para 25 de maio, feriado no país, todos os setores para conseguir um "grande acordo" a dois anos do bicentenário da declaração de independência da Argentina.

A emblemática Praça de Maio, em frente à Casa Rosada, foi o palco da grande manifestação, organizada pela peronista Frente para a Vitória, criada pelo ex-presidente - e marido de Cristina - Néstor Kirchner, e também por sindicatos e grupos "piqueteiros".

Entre as mais de 100 mil pessoas que, segundo os organizadores, assistiram ao evento estavam representantes de uma dezena de grupos de direitos humanos, que taxaram de "desestabilizadores" os produtores rurais, em greve desde 13 de março em rejeição ao aumento dos impostos às exportações de grãos.

Acompanhada do marido, Cristina fez uma dura defesa do mandato constitucional que conquistou em eleições "livres e democráticas" e disse que "nunca em tão pouco tempo" tinha visto tantos "ataques e ofensas" contra um Governo.

"Cometi dois pecados: ter sido votada pela maioria dos argentinos em eleições livres e democráticas, e ser mulher, embora me sinta orgulhosa de ser a primeira escolhida para governar pelo voto popular", ressaltou.

Em discurso de cerca de 35 minutos, ela pediu a "alguns setores" para "praticar a cultura democrática" e afirmou que, especialmente em março, viu o "rosto de um passado que parece querer voltar".

Nesse sentido, Cristina lembrou que as organizações agrárias que lideram a greve e se "orgulham de haver conseguido o desabastecimento" são "as mesmas que em fevereiro de 1976 lideraram um 'lockout' (fechamento das empresas) patronal", após o qual aconteceu o golpe de Estado que instaurou a ditadura militar de sete anos.

"Agora não vêm com tanques, mas com generais multimidiáticos que fizeram um 'lock out' à informação, que mostraram só uma cara do conflito", ressaltou a presidente.

Cristina insistiu que "sempre há custos a pagar" quando o Governo "escolhe o caminho do povo, dos direitos humanos e de uma sociedade justa e eqüitativa", e afirmou que como mulher, tem coragem para levar adiante o mandato democrático dado a ela pela população. "Não vou traí-los", disse.

A governante pediu novamente que o setor agropecuário desbloqueie as estradas para que "os argentinos possam se abastecer dos produtos de que precisam".

Os grevistas continuaram bloqueando hoje as principais estradas do país, depois que o Governo anunciou ontem uma série de medidas destinadas a compensar os pequenos e médios produtores, o que as patronais agrárias consideraram insuficientes para suspender o protesto.

O prolongamento da greve gerou o desabastecimento de alimentos básicos na maioria das cidades, situação pela qual o Governo responsabilizou o setor agrário.

"Há desabastecimento porque as pessoas do campo promoveram esta medida de força. São eles os únicos responsáveis", assegurou o chefe de Gabinete, Alberto Fernández.

O ministro do Interior, Florencio Randazzo, pediu ao setor para "normalizar a situação", considerando que suas reivindicações fundamentais "foram satisfeitas", e no mesmo sentido se pronunciou o titular da Economia, Martín Lousteau.

"Os bloqueios nas estradas têm que cessar, porque com as medidas anunciadas beneficiamos o pequeno produtor", sustentou Lousteau antes de pedir ao campo para discutir uma saída ao conflito, já que "não se pode brincar com a comida das pessoas", apontou.

Apesar dos cerca de 400 piquetes nas estradas, os maiores e mais radicais bloqueios acontecem em Gualeguaychú e Paraná (nordeste), enquanto ainda estão sendo mantidos nas províncias de Córdoba, Santa Fé (centro) e Santiago del Estero (norte).

A greve patronal do campo causou, até o momento, perdas em torno de US$ 1,93 bilhão, montante maior do que o Governo previu arrecadar com o aumento de impostos que desencadeou o protesto, segundo estimativas empresariais.

Os produtores agropecuários da Argentina convocaram para amanhã um "grande" ato em defesa dos interesses desse setor. EFE cw/mac/db

    Leia tudo sobre: iG

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG