Presidente afegão exige fim de ações militares noturnas dos EUA

Reivindicação foi imposta como condição para assinatura de parceria estratégica com Washington após retirada de país, em 2014

iG São Paulo |

AP
Presidente afegão, Hamid Karzai, discursa na abertura da "loya jirga", ou grande conselho, em Cabul, Afeganistão
O Afeganistão espera que os EUA e a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) aceitem interromper as ações militares noturnas contra casas do país, como pré-condição para a assinatura de uma parceira estratégica com Washington após a retirada das tropas de combate, prevista para 2014, disse o presidente Hamid Karzai nesta quarta-feira, ressaltando que o país quer recuperar sua soberania imediatamente.

Os militares estrangeiros dizem que as incursões noturnas estão entre suas armas mais eficazes contra os insurgentes, mas elas causam muitos atritos entre Karzai e seus parceiros estrangeiros e irritam muito a população afegã após dez anos de ocupação militar estrangeira .

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"Queremos uma parceria estratégica, mas com condições específicas: nossa integridade nacional, nada de incursões noturnas, nada de revistas domiciliares", disse Karzai numa reunião com cerca de 2 mil líderes políticos e comunitários afegãos em Cabul .

O acordo em discussão regulamentará o envolvimento americano no Afeganistão depois da retirada das tropas de combate dos EUA, o que deve ocorrer até o final de 2014. O Afeganistão também negocia acordos semelhantes com Reino Unido, França, Austrália e União Europeia, segundo Karzai.

Segundo uma fonte diplomática ocidental, as condições financeiras representam o principal obstáculo das negociações. Karzai reconheceu que o país precisará da ajuda americana depois de 2014, mas, segundo ele, com "certas condições, de modo que o Afeganistão não seja pisoteado novamente".

Leia também: EUA apresentam plano para retirada do Afeganistão em 2014

Um relatório feito em setembro por grupos de pesquisas sociais disse que as incursões noturnas, bem como a confusão decorrente da escuridão, constituem um risco alto demais para os civis. As regras para incursões e bombardeios noturnos ficaram consideravelmente mais rígidas nos últimos dois anos, mas essas ações ainda causam grande ressentimento entre os afegãos.

Karzai fez seus comentários no primeiro dia da "loya jirga" (assembleia tradicional afegã) que vai até sábado. O presidente disse que, se "eles (EUA) querem instalações militares, daremos. É do nosso interesse nacional, atrairemos mais dinheiro e treinamento para nossos soldados".

A milícia islâmica do Taleban havia prometido perturbar o andamento da "loya jirga", que discutirá a futura presença militar estrangeira no país, mas não tem poderes legislativos. Composta por 2 mil representantes das 34 províncias, das tribos e das etnias do Afeganistão, a loya jirga se reúne excepcionalmente para decidir sobre as grandes orientações do país.

A segurança em Cabul foi reforçada por ocasião da assembleia, e na segunda-feira um suposto homem-bomba foi morto nos arredores da tenda onde a reunião ocorre.

Em seu discurso, nos idiomas pashtu e dari, Karzai comparou em várias ocasiões os afegãos a leões. "Os americanos são mais poderosos, têm mais dinheiro, uma população maior, mas nós somos os leões", disse, provocando aplausos.

Para tranquilizar os países vizinhos, preocupados com a presença a longo prazo de tropas americanas em suas fronteiras, Karzai afirmou que o Afeganistão tem interesse em ter boas relações com os outros Estados e não aceitará interferência externa. Também disse que Washington não deve impedir o Afeganistão de ter boas relações com os vizinhos, como China e Rússia.

As relações de Cabul com o mundo são o tema único da reunião da Loya Jirga, mas a assembleia também deve discutir o processo de paz no Afeganistão. Karzai havia solicitado inicialmente à Loya Jirga a definição de uma nova estratégia para conversações de paz com o Taleban depois do assassinato, em 20 de setembro, do líder dos negociadores, o ex-presidente Burhanuddin Rabbani .

Ataque na fronteira

Ao menos 16 supostos rebeldes morreram nesta quarta-feira em novo ataque com mísseis de avião não tripulado americano em uma região tribal paquistanesa na fronteira com o Afeganistão, informaram fontes oficiais.

O bombardeio ocorreu em Waziristão do Sul, um dos principais redutos de redes jihadistas e de facções do Taleban paquistanês. Fontes oficiais consultadas pela emissora de televisão Khyber contabilizaram 16 insurgentes mortos e quatro feridos na ação com 14 mísseis contra dois refúgios militantes.

O bombardeio tinha como alvo atacar esconderijos do líder taleban Mehnaz Khan Mehsud, de acordo com a Khyber. Na terça, outro ataque de aviões teleguiados deixaram ao menos cinco mortos na região tribal vizinha do Waziristão do Norte, a mais castigada pelos mísseis dos EUA.

Washington tenta derrubar com esses bombardeios as facções taleban no Paquistão que planejam ataques contra suas tropas que estão no Afeganistão sem rejeitar o diálogo com os grupos que estejam dispostos a deixar as armas.

*Com Reuters, AFP e EFE

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