Preocupação sobre Irã persiste, diz Casa Branca

Estados Unidos afirma que proposta anunciada em Teerã deve ser submetida à agência nuclear da ONU

iG São Paulo |

Os Estados Unidos e seus aliados ainda sentem grandes preocupações a respeito do programa nuclear iraniano, afirmou nesta segunda-feira a Casa Branca, sem rejeitar categoricamente o acordo obtido pelo Brasil e pela Turquia para troca de urânio iraniano anunciado em Teerã.

"Nós reconhecemos os esforços feitos pela Turquia e pelo Brasil", disse o porta-voz da Casa Branca, Robert Gibbs, em um comunicado. "Dadas as repetidas vezes em que o Irã falhou em manter seus próprios compromissos e a necessidade de abordar questões fundamentais relacionadas ao programa nuclear do Irã, os Estados Unidos e a comunidade internacional continuam a ter sérias preocupações".

Segundo o texto, "a declaração conjunta anunciada em Teerã é vaga sobre a disposição do Irã em se reunir com os países do P5 + 1 (grupo formado por Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia, China e Alemanha) e abordar as preocupações da comunidade internacional sobre o seu programa nuclear".

Segundo o porta-voz da Casa Branca, o acordo deve ser apresentado de maneira clara à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) antes que possa ser considerado pela comunidade internacional.

"Os Estados Unidos vão continuar a trabalhar com nossos parceiros internacionais e por meio do Conselho de Segurança da ONU para deixar claro ao governo iraniano que deve demonstrar por meio de ações – e não apenas de palavras – sua boa vontade em cumprir as obrigações internacionais ou enfrentar as consequências, incluindo sanções", diz o texto.

Segundo Gibbs, os Estados Unidos "continuam comprometidos com uma solução diplomática para a questão iraniana" e irão "consultar" seus aliados sobre o desenrolar dos fatos.

AFP
Lula, Ahmadinejad e Erdogan comemoram após anúncio de acordo em Teerã

Irã, Brasil e Turquia assinaram nesta segunda-feira um acordo para a troca de urânio iraniano por combustível nuclear enriquecido a 20% em território turco, com o objetivo de superar a crise provocada pela política de enriquecimento de urânio de Teerã. Em troca, o Irã teria o direito de receber no máximo em um ano 120 quilos de urânio enriquecido a 20% da Rússia e França.

O acordo foi assinado pelos ministros das Relações Exteriores dos três países na presença dos presidentes iraniano, Mahmud Ahmadinejad, e brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e do primeiro-ministro turco, Recep Tayyip Erdogan. O projeto, resultado da mediação do Brasil, foi elaborado ao fim de 18 horas de negociações.

Os termos do pacto se assemelham a um acordo proposto pelo Ocidente no ano passado que ruiu pelo recuo do Irã. O acordo pode prejudicar as chances do governo Obama de conseguir a aprovação internacional para medidas punitivas contra o Irã. China e Rússia, que se mostraram muito relutantes em impor sanções a um grande parceiro comercial, poderiam usar o anúncio para pôr fim às discussões de medidas adicionais contra o país, que representariam a quarta rodada de sanções.

Acordo de outubro

Em outubro, a 1,2 tonelada que se supunha que o Irã enviaria ao exterior representava dois terços de seu estoque de combustível nuclear - suficiente para assegurar que não mantivesse material nuclear suficiente dentro do país para fabricar uma bomba nuclear. Mas agora a mesma quantidade de combustível representa uma proporção menor de seu estoque declarado.

De acordo com uma diplomata ocidental, que falou sob condição de anonimato, acredita-se que a quantidade de urânio pobremente enriquecido que o Irã estava preparado para enviar à Turquia representa um pouco mais da metade de seu atual estoque. "A situação mudou", disse.

Autoridades disseram à televisão estatal iraniana que o próximo passo seria alcançar os termos para a troca com o chamado Grupo de Viena - EUA, França, Rússia e a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), o órgão de inspeção nuclear da ONU. Eles disseram que enviarão um carta formal à AIEA confirmamndo o acordo em uma semana.

O anúncio, que parece ter o objetivo de satisfazer as demandas internacionais, surge enquanto o Irã enfrenta crescente pressões políticas e econômicas.

Apesar de o acordo ter sido considerado um passo positivo por especialistas da região, também há ceticismo se ele é real ou uma tática para transferir a culpa de um conflito para o Ocidente, enquanto atrapalha as perspectivas de o Conselho de Segurança da ONU de impor sanções, o que parecia possível daqui poucas semanas.

“O Irã tem um histórico de chegar a um acordo e depois recuar", disse Emad Gad, especialista em relações internacionais no Centro Ahram para Estudos Políticos e Estratégicos no Cairo, Egito. “Ele deixa a situação ficar muito tensa e então faz um acordo. Essa é uma característica genuína da natureza da política iraniana."

Coincidindo com a pressão por novas sanções, em 12 de junho o Irã marca o aniversário das contestadas eleições presidenciais do ano passado, que causaram meses de protestos e conflitos. O Irã também enfrenta sérias pressões econômicas de inflação, perda de investimento estrangeiros e a perspectiva de levantar os subsídios das commodities, o que significaria preços mais altos e, talvez, novas tensões sociais.

“Com acordos como esse é necessário ser um pouco cético, pelo menos inicialmente, porque muitos no passado provaram ser uma oportunidade virtual em vez de algo mais substancial", disse Michael Axworthy, ex-diplomata britânico e especialista em Irã da Universidade de Exeter.

Há motivos para ficar cético. Em Teerã, o porta-voz do Ministério de Relações Exteriores disse que o Irã não suspenderá, por exemplo, seu programa de enriquecimento de urânio a 20% - o que o aproxima do nível suficiente para uma bomba.

O Irã diz que seu programa é pacífico, enquanto o Ocidente diz que o objetivo do país é construir uma bomba. Essas acusações foram ampliadas pelo fato de o Irã ter aprimorado e testado sua capacidade de mísseis de longo alcance.

*Com AFP e New York Times

    Leia tudo sobre: IrãBrasilMahmoud Ahmadinejadprograma nuclear

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG