Premiê turco diz que lei francesa sobre genocídio armênio é 'racista'

Aprovado no Senado, texto torna crime a nefação de que extermínio cometido por turco-otomanos na Primeira Guerra foi genocídio

iG São Paulo |

O primeiro-ministro da Turquia, Recep Tayyip Erdogan, classificou nesta terça-feira de "discriminatória e racista" a lei aprovada pelo Parlamento francês que torna crime a negação de que o extermínio cometido por turco-otomanos contra armênios durante a Primeira Guerra Mundial (1914-1918) foi um genocídio.

Erdogan disse que a Turquia vai adotar "gradativamente" medidas contra a França,sem detalhar quais, caso a lei seja sancionada.

“Ainda não perdemos nossa esperança de que isso pode ser corrigido”, afirmou Erdogan, um dia após a aprovação do texto.

Leia também: Senado francês aprova lei sobre genocídio armênio

A Turquia, que vê as qualificações de genocídio como uma ameaça à sua honra nacional, suspendeu os laços políticos, militares e econômicos com a França e retirou por um breve momento seu embaixador do país no mês passado, quando a Câmara do Parlamento aprovou a mesma lei.

Em discurso no Canal+ de televisão na segunda-feira, o ministro de Relações Exteriores, Alain Juppé, que pessoalmente era contra a medida, disse que a lei vinha em um "mau momento", mas pediu ao governo turco que mantivesse a calma.

"Precisamos de boas relações e devemos atravessar esta fase de excessos", disse Juppé. "Temos laços econômicos e de negócios muito importantes. Espero que a realidade da situação não seja usurpada pelas emoções."

Alguns jornais turcos listaram as possíveis medidas que o país pode tomar. Elas incluem chamar de volta o embaixador em Paris e pedir a saída do embaixador francês na Turquia, reduzindo os laços diplomáticos para apenas um encarregado de negócios, e também fechar o espaço aéreo e marítimo turco para aeronaves e embarcações militares da França, aliada da Turquia na Otan.

Erdogan, em um breve discurso antes da votação francesa na segunda-feira, disse que a questão de futuras viagens oficias à França ficaria incerta, caso o Senado aprovasse a lei. A Turquia ainda poderia afirmar que as ações da França na Argélia nas décadas de 1950 e 1960 também equivaleriam a um genocídio.

O debate sobre a medida ocorre em meio à proximidade das eleições presidenciais na França , e críticos qualificam a lei como uma manobra puramente eleitoreira para que Sarkozy, que tentará a reeleição, conquiste os votos dos cerca de 500 mil armênios que vivem na França.

Valerie Boyer, a senadora do partido conservador que elaborou a lei, não negou essa intenção, dizendo que os políticos aprovam leis que agradam seus eleitores. "Isso é democracia", acrescentou.

Mas esse interesse doméstico pode ter consequências internacionais. As relações da França com a Turquia já estão prejudicadas, em grande parte porque Sarkozy se opõe à entrada do país na União Europeia.

A lei certamente vai desgastar ainda mais as relações da França com a Turquia, país membro da Otan que tem um papel cada vez mais importante em questões que pairam na comunidade internacional, entre elas a violência na Síria, o impasse do programa nuclear do Irã e as negociações de paz no Oriente Médio.

"É nula e sem efeito para nós", disse o ministro da Justiça turco Sadullah Ergin logo depois da aprovação da lei no Senado. "É uma grande desgraça e uma injustiça contra a Turquia. Eu quero dizer para a França que ela não tem nenhum valor para nós. Não nos importamos."

Enquanto a maioria dos historiadores afirmam que o assasasinato de 1,5 milhão de armênios entre 1915 e 1917 pelo Império Otomano corresponde ao primeiro genocídio do século 20, a Turquia nega essa questão, e diz que o número de mortos foi muito menor.

Com AP e Reuters

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