Governo de Naoto Kan sobrevive após moção apresentada por oposição ter sido rejeitada por 239 votos a 152 na Câmara Baixa

Primeiro-ministro do Japão, Naoto Kan, faz pronunciamento em Tóquio
AP
Primeiro-ministro do Japão, Naoto Kan, faz pronunciamento em Tóquio
O primeiro-ministro do Japão, Naoto Kan, cujo governo enfrentou nesta quinta-feira a votação de uma moção de censura, disse que renunciará assim que estiver encaminhado o processo de reconstrução das zonas devastadas pelo terremoto seguido de tsunami que atingiu o país em 11 de março. A moção - que, se aprovada, poderia ter forçado a queda do governo - foi rejeitada por 239 votos a 152 na Câmara Baixa.

"Neste momento, trabalho para a reconstrução do país, mas uma vez concluído meu trabalho tenho a intenção de deixar a responsabilidade para a seguinte geração de políticos", disse o primeiro-ministro, que conclamou as fileiras de seu partido à união.

A declaração de Kan foi feita durante discurso perante os membros do governista Partido Democrático (PD) antes de ser votada em plenário a moção apresentada na quarta-feira pela principal formação da oposição, o Partido Liberal-Democrata (PLD), juntamente com o partido Novo Komeito e o minoritário Sunrise Party.

O compromisso de renunciar após o fim da crise foi fruto das negociações com o ex-primeiro-ministro Yukio Hatoyama, cujo apoio foi vital para que Kan continuasse à frente do governo ao menos por enquanto.

Hatoyama, que cedeu o Executivo a Kan em junho após renunciar por uma queda brusca de sua popularidade, pressionou o primeiro-ministro para que renuncie em um futuro que, como afirmou à televisão "NHK", "não será muito distante".

O governo de Kan já estava com problemas antes do terremoto por escândalos de doações ilegais, mas as críticas por sua resposta à catástrofe o deixaram à beira do abismo. Agora o primeiro-ministro se comprometeu a concentrar-se nos esforços de reconstrução, manter a coesão de sua formação e evitar que o PLD, que governou o Japão durante 54 anos, volte ao poder.

Kan, de 64 anos, tomou as rédeas do governo com um programa que dava prioridade à economia e se comprometia a sanear as finanças do Japão, um país afligido por uma exorbitante dívida pública (mais que o dobro de seu Produto Interno Bruto).

Seus esforços foram abalados pela catástrofe de 11 de março, a pior tragédia sofrida pelo Japão desde a Segunda Guerra Mundial, que deixou mais de 23 mil mortos e desaparecidos, destruiu milhares de casas e causou a crise nuclear mais grave após a de Chernobyl, em 1986.

Embora nos dias imediatamente posteriores ao terremoto os partidos políticos tenham deixado de lado as diferenças por causa da magnitude do desastre, em breve recomeçaram a surgir críticas à gestão de Kan.

De nada serviu o fato de na quarta-feira a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) indicar que a resposta do Japão ao desastre de 11 de março foi “exemplar”, apesar de o país ter subestimado o risco de um tsunami atingir uma usina nuclear.

Segundo uma pesquisa realizada no fim de maio pelo jornal "Nikkei", 74% da população considera "insatisfatória" a gestão da crise nuclear e 62% desaprovam o trabalho geral do governo.

Para a oposição e parte do partido governista, Kan mostrou lentidão em sua resposta e falta de liderança diante de uma crise que, além da tragédia humana, representou um sério revés à economia japonesa, arrastada novamente à recessão .

Com seu futuro político comprometido, o primeiro-ministro deve lidar com a resposta humanitária, a crise nuclear, a recuperação econômica e a crescente dívida pública, ao que se soma a dificuldade adicional de atuar com um partido fracionado.

Entre seus principais opositores internos está o influente Ichiro Ozawa, ex-secretário-geral da formação, que nesta quinta se absteve de votar após anunciar na véspera que o faria contra Kan. A facção leal a Ozawa, 40 deputados dos 305 com os quais conta o PD na Câmara Baixa, também decidiu no último momento apoiar ao primeiro-ministro, mas só após conhecer sua intenção de renunciar no futuro.

O PD chegou ao poder após uma vitória histórica nas eleições de agosto de 2009, colocando fim no longo governo do PLD no Japão, um país que teve cinco primeiros-ministros nos últimos cinco anos.

*Com EFE

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