Premiê da Rússia acusa EUA de ter papel em morte de Kadafi

Acusação se soma a recentes disputas entre os dois países e é feita após críticas americanas à eleição russa; Putin rejeita nova votação

iG São Paulo |

O primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, acusou forças especiais americanas de ter envolvimento na morte do ex-ditador líbio Muamar Kadafi , que foi executado depois de ter sido capturado por rebeldes em 20 de outubro. O Departamento de Defesa dos EUA reagiu à acusação classificando-a de "absurda".

AP
Primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, gesticula durante programa de TV em Moscou
"Drones (aviões não tripulados), principalmente americanos, atacaram o comboio. Depois, as forças especiais, que não tinham nada o que fazer ali, chamaram com seus rádios a pseudo oposição e os combatentes que o eliminaram sem julgamento e sem investigação", disse durante tradicional programa anual de TV em que ele responde a perguntas feitas por telefone.

"A afirmação de que as forças especiais dos EUA tiveram envolvimento na morte do coronel Kadafi é absurda", declarou à AFP o capitão John Kirby, porta-voz do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Leon Panetta.

A acusação de Putin foi feita enquanto o premiê prepara seu provável retorno à presidência no próximo ano, após as eleições legislativas de 4 de dezembro que foram denunciadas como fraudulentas por observadores internacionais e por manifestantes que lotaram as ruas do país nos maiores protestos desde o colapso da União Soviética, há 20 anos.

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Seu partido, o Rússia Unida, teve quase 50% dos votos, mas viu sua bancada parlamentar ser reduzida de 315 para 238 deputados - o que ainda assim representa a maioria na Duma (Câmara dos Deputados). A oposição diz que o resultado do partido seria pior se não houvesse fraudes generalizadas, como a colocação de votos falsos nas urnas.

No dia 8, Putin chegou a acusar os EUA de estimular as manifestações no país . De acordo com ele, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, “deu um sinal” aos opositores do governo ao denunciar as supostas irregularidades na votação.

Em dois dias consecutivos após a eleição parlamentar, Hillary criticou a votação, afirmando que a população “merece uma investigação completa sobre fraudes e manipulações eleitorais”. De acordo com a chanceler americana, as eleições russas não foram "livres e justas", dizendo que isso demonstra que menosprezam a confiança da cidadania em suas instituições.

As eleições são um dos itens de divergência recente entre Moscou e Washington. Entre outras questões, os dois países estão em disputa por um sistema de escudo antimísseis na Europa , pelo posicionamento de forças convencionais russas em território europeu e pela resistência russa em criticar a repressão síria contra um levante popular .

Defesa do processo eleitoral

Nesta quina-feira, Putin voltou a subestimar os questionamentos sobre os resultados favoráveis ao  Rússia Unida. "Do meu ponto de vista, o resultado indubitavelmente reflete a opinião pública no país", disse Putin, de 59 anos, que aproveitou o programa para burilar sua imagem de líder forte, eficaz e atencioso, com conhecimento detalhado sobre o país e interesse em cada um dos seus cidadãos.

"A oposição sempre dirá que as eleições não são honestas. "O fato de que as pessoas se expressam sobre o que acontece no país é algo totalmente normal, desde que permaneça dentro dos marcos da lei", declarou na televisão.

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Em um aparente elogiou à mobilização, Putin afirmou que viu entre os manifestantes muitos jovens "ativos e formulando claramente sua posição". Logo depois, porém, ironizou a mobilização afirmando que, em um primeiro momento, acreditou que a fita branca que virou símbolo dos protestos referia-se à luta contra a aids.

Na entrevista, o premiê russo, que já ocupou a presidência russa de 2000 a 2008, também indicou que não pretende ceder à proposta de repetir a votação, mas fez um aceno aos rivais ao propor a instalação de câmeras de vídeo nas seções eleitorais para a eleição presidencial de 4 de março - na qual é favorito.

"Propus e pedi à Comissão Eleitoral Central a instalação em todos os centros de votação, que são mais de 90 mil, de câmeras que funcionem de forma permanente, por 24 horas", disse, explicando que a ideia é permitir que as imagens sejam fiscalizadas publicamente pela internet.

A popularidade de Putin vem sofrendo uma queda desde setembro, quando anunciou a intenção de se candidatar a presidente em 2012, trocando assim de cargo com o seu afilhado político Dmitri Medvedev, atual presidente. Muitos líderes viram nesse anúncio o sinal de que tudo foi acordado entre os dois políticos, sem respeito pela democracia.

*Com Reuters, AFP, EFE e AP

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