Premiê britânico aponta falhas da polícia e 'problema cultural'

Cameron diz que onda de violência 'não é questão de pobreza' e promete justiça; número de mortos em distúrbios chega a cinco

iG São Paulo |

O primeiro-ministro britânico, David Cameron, afirmou nesta quinta-feira que a reação inicial da polícia aos distúrbios no Reino Unido foi lenta e equivocada. Em discurso o Parlamento, o premiê também disse que a onda de violência em várias cidades da Inglaterra “não é questão de pobreza, é questão de cultura”.

Segundo Cameron, a polícia errou ao tratar os distúrbios como um caso de desordem pública e não de criminalidade. "No início o número de policiais nas ruas foi muito pequeno e suas táticas não funcionaram", afirmou o premiê. Embora tenha descartado colocar o Exército nas ruas para conter os distúrbios, Cameron disse que irá avaliar se os militares podem assumir alguma função para "liberar mais policiais para a linha de frente".

Na tentativa de explicar as causas da onda de violência, o premiê afirmou que a sociedade britânica está “partida” e que são necessárias mudanças no sistema de benefícios, mais disciplina nas escolas e um sistema criminal mais claro. "Há um enorme problema em nossa sociedade com as crianças crescendo sem saber a diferença entre certo e errado. Não é questão de pobreza, é questão de cultura. Uma cultura que glorifica a violência, que mostra desrespeito à autoridade e que diz tudo sobre direitos, mas nada sobre deveres", afirmou.

"Em muitos casos, os pais dessas crianças, se é que ainda estão por perto, não sabem onde seus filhos estão ou com quem eles estão, muito menos o que eles estão fazendo", completou.

Cameron chamou de "ridícula" a hipótese de que a violência e os saques registrados em várias cidades da Inglaterra estejam relacionados à morte de Mark Duggan, jovem negro morto por policiais no bairro de Tottenham, em Londres, no sábado. Segundo o premiê, a morte de Duggan está sendo investigada e foi "explorada por ladrões oportunistas".

O premiê disse também que indivíduos e empresas que tiveram propriedades danificadas durante os distúrbios receberão compensações do governo, e afirmou que a polícia, os serviços de inteligência e a indústria estão analisando o papel de mensagens de celular e redes sociais na propagação da violência. "Vamos ver se é correto impedir que as pessoas se comuniquem por esses sites e serviços quando sabemos que estão planejando violência, desordem e criminalidade."

Cameron também prometeu “justiça rápida” para os responsáveis pelos distúrbios, em que ao menos cinco pessoas já morreram . Além de Richard Mannington Bowes, que morreu nesta quinta-feira depois de ficar em coma, Haroon Jahan, Shahzad Ali e Abdul Musavir morreram na terça-feira em Birmingham . Um dia antes, um homem de 26 anos foi encontrado baleado em Croydon, subúrbio do sul de Londres. Ele foi levado para o hospital, mas acabou não resistindo.

Até agora, só em Londres, 922 suspeitos foram presos e 401 foram indiciados, incluindo dois rapazes de 17 anos e um de 18, acusados de destruir um depósito da Sony, no norte da cidade. Na noite de quarta-feira, considerada relativamente calma, mais de 16 mil policiais estavam a postos na capital. Durante a madrugada, a Scotland Yard começou a fazer batidas policiais em várias partes da cidade.

"Temos mais de 100 mandados que serão cumpridos nas próximas horas e dias. Com tantos policiais trabalhando, vamos usar o tempo deles para sair por aí e prender ladrões e assaltantes, pessoas que geram preocupação e crime em nossas comunidades", disse o vice-comandante da Scotland Yard Steve Kavanah.

A polícia de West Midlands, na região central do país, anunciou ter feito 330 prisões, incluindo a de uma menina de 14 anos, levada a uma delegacia por um tio, que suspeitava que ela tivesse levado roupas roubadas para casa.

Na região metropolitana de Manchester, 140 pessoas foram presas e 97, indiciadas. Já a polícia do condado de Merseyside, no noroeste do país, prendeu 24 pessoas só nesta madrugada.

Segundo a BBC, 250 oficiais da polícia escocesa foram enviados para ajudar a polícia em Midlands e no norte da Inglaterra. De acordo com o site do governo, o policiamento foi mantido na noite de quarta-feira nas regiões de Londres, Birmingham, Nottingham, Bristol, Manchester e Liverpool.

Mais prisões devem ser feitas nos próximos dias, já que a polícia está analisando fotos e imagens de circuito fechado de TV.

"O público tem um papel importante em garantir a segurança das ruas e eu peço a todos que olhem as imagens na mídia a partir de hoje e nos digam quem são esses infratores e onde podemos encontrá-los para que eles possam ser levados à Justiça", disse o vice-comandante da polícia de Merseyside Andy Ward.

Menores

De acordo com a Scotland Yard, a metade dos processados em Londres pelos distúrbios ocorridos desde sábado tem menos de 18 anos . Uma menina de 11 anos está entre as centenas de indiciados pelos distúrbios. A menina - cujo nome não foi divulgado - foi acusada de depredação e tentativa de depredação na cidade de Nottingham, norte da Inglaterra. Ela se junta a um menino também de 11 anos, acusado de roubar um cesto de lixo em uma loja saqueada no bairro de Romford, em Londres.

A idade de responsabilidade criminal no Reino Unido abrange menores de idades entre 10 e 17 anos, que só poderão ser processados em tribunais para adultos caso tenham cometido delitos como roubo, incêndios provocados e violência.

Em Nottingham foram detidos também três meninos de 14 anos, acusados de desordem pública. Um menino de 15 anos está sob custódia em Birmingham por ter aproveitado os distúrbios para roubar 13 pacotes de chicletes e 21 chocolates. Outros dois jovens de 17 anos foram detidos em Londres por roubar várias lojas, entre elas uma de roupa de marca e joalherias. Na região de West Midlands, no centro da Inglaterra, outros seis menores passaram também por julgamento.

Ainda nesta quinta-feira, o premiê britânico disse que o governo  está estudando interromper os serviços de redes sociais online, como o BlackBerry Messenger e o Twitter, durante o período de distúrbios nas ruas. "Estamos trabalhando com a polícia, os serviços de inteligência e a indústria para ver se seria correto interromper a comunicação das pessoas via websites e serviços quando soubermos que eles estão conspirando para a violência, desordem e criminalidade", disse Cameron ao Parlamento, durante uma sessão de emergência marcada por causa dos distúrbios no país.

Boa parte dos manifestantes que foram às ruas no Reino Unido preferiu o serviço do BlackBerry ao Twitter e outras mídias sociais porque suas mensagens são criptografadas e privadas.

Origem dos distúrbios

As revoltas explodiram no sábado no bairro de Tottenham, após um protesto pela morte de Mark Duggan. Ele foi morto por policiais na quinta-feira depois de ser abordado em um táxi por uma unidade que investiga crimes com armas de fogo no bairro. O jovem teria sido morto em um suposto tiroteio que também teria ferido um policial.

A assistente social Michelle Jackson, de 43 anos, disse à BBC que muitos ficaram descontentes em Tottenham, um bairro que abriga muitos imigrantes, depois que a polícia começou a dar declarações sobre Mark Duggan à imprensa, mas sem fornecer qualquer tipo de informações para a família do jovem morto.

"Eu conheço o homem que foi morto, ele era um sujeito muito bacana, e eles estão fazendo parecer como se fosse uma espécie de gangster envolvido em armas e em coisas desse tipo", afirmou Michelle. Segundo ela, a polícia não sabe lidar com os jovens negros de Tottenham, e muitas pessoas de diversas nacionalidades e etnias se juntaram ao tumulto de sábado.

Arte iG
Violência se espalhou por bairros de Londres e outras cidades

Com BBC, AP, Reuters e The Guardian

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