`Pragmatismo de Dilma é essencial para EUA', diz Thomas Shannon

Em entrevista ao iG, embaixador americano diz que atritos com Brasil ficaram para trás e vê com otimismo relação com novo governo

Leda Balbino, iG São Paulo |

O embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon, só tem olhos para o futuro na relação entre os dois países. Para o ex-secretário adjunto para a América Latina, que ocupa a missão diplomática dos EUA em Brasília desde fevereiro de 2010, a possibilidade de relacionamento entre os dois aumenta à medida que o Brasil, que considera um poder global, continua trasformando-se internamente e mudando seu papel em nível internacional.

Para a relação ser positiva, a nova presidenta brasileira, Dilma Rousseff, seria fundamental. Descrita como “superinteligente e criativa”, Dilma também é vista por Shannon - que a conheceu quando ela era ministra de Minas e Energia e depois na Casa Civil -, como detentora de “um pragmatismo e uma capacidade de entender problemas e procurar soluções que para nós são essenciais”.

Segundo ele, disputas como a relacionada ao programa nuclear do Irã, que azedaram os vínculos entre os dois países no ano passado, ficaram para trás depois que o Brasil, apesar da resistência inicial, aceitou implementar a quarta rodada de sanções da ONU contra o país em junho.

“O Brasil se comprometeu a seguir a resolução, e para nós isso é o importante. Então, os EUA e o Brasil estão na mesma posição”, disse Shannon ao iG no Consulado dos EUA em São Paulo, em sua primeira entrevista exclusiva a um portal de internet.

Leia a seguir os principais trechos da entrevista, em que também fala sobre a ausência de um encontro bilateral entre Dilma e a secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton , no dia da posse; os planos de viagem de Obama ao Brasil; a questão nuclear do Irã; a reforma do Conselho de Segurança da ONU ; a relação comercial entre EUA e Brasil; a disputa pelo etanol ; a possibilidade de isenção de visto americano para os brasileiros; e os perigos representados pelo WikiLeaks , que em novembro começou a vazar mais de 250 mil documentos diplomáticos americanos.

Flávio Torres
O embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon: 'O WikiLeaks ainda está preso na visão de mundo da época da Guerra Fria'
iG: A presidente Dilma Rousseff não adotou a praxe de visitar os EUA antes da posse e não manteve um encontro bilateral com Hillary em Brasília em 1º de janeiro. Além disso, até março visitará Argentina, Peru e Paraguai, sem data definida para uma viagem a Washington. Isso indica a continuidade da política de priorizar a América Latina e as relações Sul-Sul em detrimento dos EUA?
Shannon: Não. Obama e Dilma conversaram várias vezes quando ela ainda era ministra, depois como presidenta eleita e antes da posse. O convite para a viagem aos EUA foi um gesto de nossa parte, para nos aproximar e conversar com ela. O presidente Obama entendeu que naquele momento ela trabalhava para montar seu gabinete, e ficamos satisfeitos com a resposta, que foi: “Sim, mas agora não.” Estamos trabalhando com a Presidência e o Itamaraty para definir uma data, que será dentro dos próximos meses. Mas também entendemos a importância para o Brasil de cuidar das relações com os vizinhos. Historicamente é comum para o presidente dos EUA ir primeiro ao Canadá ou México antes de iniciar outras viagens internacionais. Entendemos se o Brasil adota a mesma prática.

iG: E uma viagem de Obama ao Brasil ?
Shannon: Ao falar com Dilma, o presidente Obama mostrou interesse em visitar o Brasil. É uma questão de agenda. O ano passado impediu a viagem por tudo o que aconteceu, desde o (vazamento de petróleo no) Golfo do México, a reforma da saúde pública até as eleições (legislativas dos EUA) em novembro.

iG: No início de 2010, o sr. escreveu um telegrama diplomático dizendo que Dilma, que então se preparava para iniciar a campanha eleitoral, “claramente não é Lula.” O que queria dizer?
Shannon: Não posso fazer comentários sobre esses telegramas (vazados pelo site WikiLeaks). Mas posso dizer que os EUA começaram uma relação com Dilma Rousseff em 1992, quando ela trabalhava no Rio Grande do Sul e visitou o país em um programa de lideranças internacionais. Em diferentes momentos de sua carreira tivemos uma relação positiva e colaborativa. Temos uma opinião favorável e positiva sobre ela, e muito interesse em trabalhar com seu governo. Eu a conheci quando ela era ministra de Minas e Energia, depois titular da Casa Civil, e ela me recebeu em Brasília várias vezes quando eu era subsecretário, sempre me tratando com muita hospitalidade. Foram nesses encontros que conheci a Dilma superinteligente, muito criativa e com um pragmatismo e uma capacidade de entender problemas e procurar soluções que para nós são essenciais.

iG: Para o sr., o futuro da relação entre Brasil e EUA não está nas questões bilaterais, mas nas globais. No entanto, nos últimos anos, o relacionamento entre os dois países foi marcado por atritos fora da esfera bilateral, como no caso do Irã. Qual a expectativa com Dilma no poder?
Shannon: Minha visão de futuro é bem otimista. Em primeiro lugar, temos interesses e valores comuns – e eles são mais importantes que as diferenças. Em segundo, a relação é bem dinâmica por causa das mudanças por que passam o mundo e o Brasil. Por isso, as possibilidades de colaboração aumentam com a transformação doméstica e global brasileira. Isso não quer dizer que a relação será positiva gratuitamente. Temos de entender seu dinamismo, o novo espaço onde Brasil e EUA podem trabalhar juntos, e necessitamos de criatividade para identificar as áreas onde podemos colaborar.

iG: Quais são essas áreas?
Shannon: Na segurança energética colaboramos não só em biocombustíveis, mas também em cidades verdes que diminuam o uso de hidrocarbonetos. Há espaço para expandir a colaboração no setor alimentar, principalmente porque Brasil e EUA têm capacidade e responsabilidade importantes nessa área por provavelmente serem os mais fortes na produção agrícola e de alimentos. Na área de não-proliferação, há um diálogo excelente que nos permitirá trabalhar juntos em fóruns internacionais e para aprimorar a capacidade mundial em proibir a proliferação de certos tipos de armas. Outra área de cooperação é a da luta contra o crime organizado e a violência transnacional. Com sua Polícia Federal, o Brasil está assumindo um papel cada dia mais importante na América do Sul e tem muito interesse em colaborar em nível internacional. E, finalmente, o Brasil vem se estabelecendo como um país doador de assistência ao desenvolvimento, sendo o único com a experiência de desenvolver-se internamente enquanto se transforma em um Estado doador. Isso abre um importante espaço de colaboração entre o Brasil e doadores já estabelecidos - sejam EUA, Canadá, países da União Europeia – por causa da capacidade agrícola e em saúde pública brasileiras. Cooperamos com o Brasil em Moçambique, na luta contra a aids, e no Haiti, no combate à malária.

iG: Para o sr., o Brasil é um poder global com interesses regionais e responsabilidades internacionais. A crítica de Dilma à situação de direitos humanos no Irã, especificamente sobre a questão do apedrejamento, seria uma mostra do reconhecimento dela sobre essa responsabilidade?
Sim, e também expressa sua maneira de ver o mundo como uma pessoa que foi prisioneira política, sofreu tortura, entende a luta da mulher não somente dentro de um sistema político, mas na sociedade. Indica que ela tem uma compreensão especial sobre pessoas vulneráveis por razões de gênero ou posições políticas. É interessante que antes e depois da entrevista ao “Washington Post” , ela tenha falado abertamente e com força sobre valores. Na posse, ela defendeu a liberdade de imprensa, de expressão, os direitos humanos de uma maneira bem clara, e isso é importante.

iG: Nessa entrevista, porém, ela não abordou a questão nuclear iraniana. O que se espera do governo Dilma nesse tema?
Shannon: É importante entender e lembrar que o Brasil se comprometeu a seguir a resolução das sanções , e para nós isso é o importante. Nesse momento, o Brasil está com o resto da comunidade internacional, implementando as sanções e procurando uma maneira de convencer o Irã a voltar à mesa de negociações de uma maneira a melhorar a confiança mundial sobre seu programa nuclear. Então, os EUA e o Brasil estão no mesmo lugar.

iG: Mas há expectativa de uma atuação mais comedida, como por exemplo evitando encontros diretos com o líder iraniano, Mahmoud Ahmadinejad?
Shannon: Essa não é uma questão só entre o Brasil e os EUA. É uma responsabilidade compartilhada na comunidade internacional. É importante que os países que querem defender o uso pacífico da energia nuclear, o uso civil, falem claramente sobre o uso ilegal do poder nuclear para fins bélicos. E nesse sentido os países que assumem responsabilidade nessa área, sejam o Brasil, a Rússia, a China, os EUA, Inglaterra, França, Alemanha, têm de falar de uma maneira clara com o Irã. E nossa diplomacia está tentando trabalhar com todos esses países para assegurar uma mensagem clara e compreensível.

iG: O sr. reconhece a necessidade de reformar a ONU para permitir a ascensão de países como Brasil e Índia. Obama, porém, defendeu a Índia nesse sentido , aceno que o Brasil esperava há tempo. A posição brasileira sobre o Irã prejudicou suas pretensões de integrar o Conselho de Segurança como membro permanente?
Shannon: Para considerar a reforma do Conselho de Segurança da ONU (CS/ONU), temos de falar dos países que historicamente mostraram interesse e compromisso com os temas mundiais e trabalham para fortalecer as regras e práticas do sistema internacional. O Brasil obviamente faz parte dessa categoria. Foi um dos fundadores da ONU e sempre assumiu suas responsabilidades dentro da comunidade internacional com consciência. O papel do País (na liderança das tropas de paz da ONU no) Haiti é uma mostra disso. Claro que às vezes haverá diferenças dos EUA com Brasil, Índia, com outros membros historicamente mais próximos, como o Reino Unido, mas isso em si mesmo não significará um veto. Na atual discussão sobre a reforma do CS/ONU, não importa a posição que o país "X" ou "Z" tomou sobre certo tema, mas como integrar os interesses complicados dos países que querem entrar no CS/ONU com os que já estão lá. Isso não é nada fácil, mas é necessário encontrar uma solução, porque o CS/ONU do século 21 precisa de reforma. O atual conselho reflete algo importante, mas não tudo. Ele não reflete os países emergentes, que procuram voz, e esse é o problema.

Flávio Torres
O embaixador dos EUA no Brasil, Thomas Shannon: 'O atual Conselho de Segurança reflete algo importante, mas não os países emergentes, que procuram voz'
iG: Os EUA foram ultrapassados pela China como principal parceiro comercial do Brasil e também devem ser superados em fluxo de investimentos. Os EUA perdem espaço no Brasil?
Shannon: Temos de fazer muita coisa. As relações comerciais entre os dois países são importantes e significativas – acho que o comércio total é de US$ 50 bilhões –, mas os dois países poderiam melhorar dramaticamente seu comércio bilateral, e não devemos aceitar a relação como é hoje. Temos de melhorá-la, promover investimentos nos dois países e a venda de nossos produtos. Mas há algo interessante ocorrendo nessa relação econômica ou comercial que não acontece nas relações do Brasil com a China ou outros parceiros. Há um crescimento da interdependência entre as companhias e as economias americanas e brasileiras, no que é conhecido como "supply chain rate”. Por exemplo, uma companhia nos EUA produz componentes para aviões e os vende a uma empresa no Brasil, que constrói ou o avião ou outro componente para depois vendê-los nos EUA ou em um terceiro mercado, como faz a Embraer. Então, as companhias dependem cada dia mais umas das outras, e vemos isso cada vez mais nos setores de aviação, automobilístico. Esse crescimento é bem interessante e indica que o Brasil está assumindo um papel cada vez mais importante na economia americana e vice-versa. Mas, ainda assim, nosso nível de comércio não é suficiente.

iG: Qual a razão disso? O crescimento da China é um fator?
Shannon: Em termos absolutos, o comércio se manteve ou está crescendo, mas com a globalização o Brasil construiu uma relação comercial de muita diversidade, o que é saudável. No entanto, não podemos aceitar um distanciamento. A ascensão da China não é um problema, mas sim estarmos perdendo oportunidades. Se outros países e companhias reconhecem isso e vendem mercadorias que queríamos vender não é problema deles, mas nosso. Nós temos a culpa. Não vou culpar os chineses por vender aqui.

iG: O pacote fiscal aprovado em dezembro pelo Congresso dos EUA prevê a prorrogação da tarifa de importação e do subsídio ao etanol de milho no país. Segundo organizações que defendem o fim dos subsídios, a prorrogação abre a possibilidade de uma batalha do Brasil na Organização Mundial do Comércio. Como o sr. vê isso?
Shannon: O futuro do biocombustível depende da capacidade dos EUA e Brasil de encontrar matérias-primas mais diversas que a cana de açúcar e o milho. Para que os biocombustíveis se tornem uma commodity que possa competir com os hidrocarbonetos, precisam de uma fonte biológica superior aos dois. O Brasil e os EUA não podem depender de uma fonte de energia que venha só de um produto agrícola. Essa maneira de ver a questão como uma briga pelo acesso ao mercado do etanol de cana ou milho é como, ao princípio do século 20, discutir se um cavalo deveria ser estimulado a andar mais com o chicote ou por outro meio enquanto o carro chegava à economia. Essa disputa é uma controvérsia que causa retrocesso e não se volta para futuro. Mas estamos trabalhando nisso com o acordo sobre biocombustíveis e o trabalho internacional para tentar construir regras para fazer uma commodity confiável de biocombustíveis.

iG: Como o Brasil está próximo dos 97% de aprovação para seus pedidos de visto , os EUA estudam a possibilidade de isentar o País da exigência do documento?
Shannon: Apesar de importante, o nível de aprovação é apenas um dos requisitos para o programa de isenção. O Brasil vem obtendo avanços muito importantes, mas obviamente isso é um processo que toma tempo, porque é uma decisão grande eliminar a necessidade de visto. Mas um Brasil que sairá da posição de oitava ou sétima economia do mundo para tornar-se quinta ou quarta, um Brasil onde a classe média cresce a cada dia, seria um candidato excelente.

iG: Qual é o impacto dos vazamentos de documentos diplomáticos dos EUA pelo WikiLeaks ? O episódio é somente um embaraço para Washington, diminuindo sua confiabilidade como parceiro diplomático, ou realmente ameaça o país e seus parceiros?
Shannon: Vamos sobreviver ao WikiLeaks. E vamos sair fortalecidos de certa forma, pois (os vazamentos) indicaram algumas áreas débeis em nosso sistema de proteção de informação. Mas os países que têm relação conosco vão mantê-la pelo simples fato de sermos um país importante no mundo. Outros Estados têm interesse em falar e colaborar conosco e entender o que pensamos. Isso não vai diminuir. Mas o WikiLeaks tem um lado perigoso, porque seu propósito foi reduzir o espaço da conversa privada, confidencial com parceiros, o que na diplomacia é essencial para a troca de ideias e busca de soluções para chegar a um consenso. Abrir todos os espaços de diálogo não é bom, e indica da parte dos "WikiLeakers" um entendimento velho do mundo. Hoje a grande parte de nosso sistema para proteger informação não tem esse propósito. O objetivo é construir espaços de diálogo dentro de governos e entre eles para chegar a decisões acertadas que não sejam expostas a pressões políticas e públicas.

iG: O sr. fala em confidencialidade, mas o sistema em que os telegramas eram distribuídos foi criado na década de 90 e podia ser acessado por 2,5 milhões de pessoas . Não houve uma falha dos EUA em não garantir uma melhor segurança de comunicação secreta e confidencial?
Shannon: Somos um país e governo grandes, estamos em todas as partes do mundo, e esse número representa muito menos de 1% da população americana. Essa comunicação mostra que temos um sistema de governo bastante aberto internamente. Dentro dele não há ilhas superprotegidas. Especialmente depois do 11 de Setembro de 2001, aumentamos o fluxo de comunicação para melhorar a capacidade das agências de compartilhar informação. Ou seja, o propósito da confidencialidade não é guardar ou esconder informação, é usá-lo de uma forma inteligente.

    Leia tudo sobre: thomas shannoneuabrasildilma rousseffbarack obama

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG