Povoado chileno arrasado por tsunami busca seus mortos

Um dia depois de enterrar sua mulher, Miguel Palma buscava desconsolado nesta terça-feira o nome de seus dois filhos desaparecidos numa lista de mortos pelo terremoto seguido de tsunami que arrasou o povoado de Constitución, ao lado do Oceano Pacífico e a mais de 300 quilômetros ao sul de Santiago.

Reuters |

Na madrugada de sábado, cerca de meia hora depois que um dos mais fortes terremotos da história moderna golpeara o Chile, ondas de 10 metros acabaram com o povoado e seus arredores, deixando mais de 350 mortos.

Com 50 mil habitantes, Constitución registrou cerca de metade dos mais de 700 mortos deixados pelo tremor de magnitude 8,8, e pelos tsunamis posteriores. O povoado localiza-se na região de Maule, que contabiliza 586 dos 795 mortos  da tragédia.

Reuters
Chilena é amparada por funcionários de necrotério após identificar seu filho entre os mortos

Chilena é amparada por funcionários de necrotério após identificar filho

Os alarmes contra tsunami nunca soaram. O ginásio do povoado converteu-se em um necrotério improvisado, onde na terça-feira chegou um caminhão com caixões para que as famílias pudessem sepultar seus mortos.

Em meio ao pranto de outros familiares, Palma revisava a lista de 70 mortos pregada na parede do ginásio, buscando os nomes de seus dois filhos de 9 e 7 anos.

"Estavam acampando na ilha e chegou o mar, e desde então não sabemos nada sobre eles", disse Palma, de 28 anos, acompanhado por seu pai.

"A mãe estava com eles, a encontramos e a enterramos ontem. A municipalidade nos enviou a urna, mas o traslado tivemos de fazer em veículos particulares", acrescentou.

AFP
Residentes locais caminham perto de barco enterrado na areia pelo tsunami

Residentes caminham perto de barco enterrado na areia pelo tsunami


Entre a costa central de Llo-Lleo e o porto de Talcahuano, ondas gigantescas devoraram povoados costeiros, penínsulas e portos.

Durante as primeiras horas após o terremoto, o governo negou-se a falar sobre um tsunami, mas terminou reconhecendo logo e explicando que o sistema de alarme falhou por um "erro" da Marinha.

Em Constitución, ondas gigantes avançaram pela cidade e fizeram subir o nível da foz do rio Maule. As casas precárias da praia foram arrastadas por 150 metros e lançadas ao mar.

"Vimos pessoas penduradas nas árvores usando seus celulares como luzes, pedindo ajuda aos gritos desde a ilha", disse María Isabel Piña, que tinha um posto de venda de pão e empanadas na frente da foz do rio.

Numa ilha, 200 metros mar adentro, cerca de duas centenas de pessoas haviam acampado no sábado para celebrar uma festividade típica da região. "Salvaram-se apenas cinco pessoas na ilha", disse Graciela Bravo, nativa de cerca de 50 anos.

Reuters
Casa destruída em Constitución
Casa destruída em Constitución


Sem rumo

Os sobreviventes em Constitución caminham sem rumo pelas ruas destruídas e já começam a sentir o odor dos cadáveres. Muitos fazem fila fora do ginásio para receber água.

Outros buscam ajuda ou comida entre os escombros e as casas destruídas. Em um supermercado da cidade, já não há quase nada: foram levadas até as caixas registradoras.

Enquanto isso, a ajuda começava a chegar em um helicóptero do Exército e as pessoas corriam ao local com pedidos.

O governo disse que está fazendo todo o possível para entregar a ajuda nos lugares mais afetados, mas para os sobreviventes as necessidades são muitas.

"Não há nada, perdemos tudo. Fiquei com isso que você vê. Foi só o que pude salvar. Precisamos de roupa, víveres, água, alimentos", disse Jorge Orellana, de 23 anos, que salvou apenas um par de bolsas que levava consigo.

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