Portugal vai às urnas escolher fórmula para tentar sair de crise

Portugal, o único país europeu em que os socialistas têm maioria absoluta no parlamento, tem eleições este domingo. O país decide quem ficará no poder nos próximos quatro anos, numa disputa entre o atual primeiro-ministro, José Sócrates, do PS, e Manuela Ferreira Leite, do Partido Social-Democrata, de centro-direita.

BBC Brasil |

Apesar de inúmeras semelhantes, a os partidos, que são majoritários desde a volta da democracia ao país, em 1974, divergem sobre como tirar o país da atual crise econômica.

Os socialistas apostam em grandes obras públicas, como a construção de rodovias, um novo aeroporto para Lisboa e três linhas de trens de grande velocidade, ou TGVs, ligando as principais cidades portuguesas à Espanha (Lisboa - Madrid, Porto-Vigo e Lisboa-Porto).

A proposta do PSD é suspender as grandes obras para evitar o endividamento do Estado - durante um debate entre os candidatos, Manuela Ferreira Leite chegou a afirmar que "o TGV só interessa aos espanhois" - e, em vez disso, financiar pequenas e médias empresas, que gerariam mais emprego, no entender do partido.

Oficialmente, teriam direito a voto 8,5 milhões de portugueses. No entanto, cerca de 600 mil são os chamados "eleitores fantasmas" - os prefeitos evitam tirar os nomes dos mortos das listas eleitorais porque as verbas que recebem do Estado estão vinculadas ao número de eleitores.

Além dos dois principais adversários, outros 13 partidos e listas de cidadãos concorrem aos 230 lugares no parlamento.

Com a decisão por voto distrital - cada região elege deputados de acordo com o tamanho da sua população - as sondagens indicam que apenas cinco listas têm condições de colocar representantes no parlamento: além de PS e PSD, o Bloco de Esquerda (partido formado por ex-trotskystas e ex-maoístas com independentes), o Centro Democrático Social (de direita) e a Coligação Democrática Unitária, capitaneada pelo Partido Comunista Português.

As últimas quatro sondagens, divulgadas na sexta-feira, dão vantagem aos socialistas, com 38 a 40% dos votos. Em segundo ficam os social-democratas, com 29 a 31% dos votos; em terceiro o Bloco de Esquerda, com 9 a 11%; em quarto o CDS, com 7,6 a 8,6%; e em quinto a CDU, com 7,4 a 8,4%
Reviravoltas
A campanha eleitoral portuguesa passou por várias reviravoltas. No começo do ano, era considerado certo que o PS iria ganhar as eleições.

Isso apesar de durante os quatro anos de governo o premiê ter tomado várias medidas impopulares, como o fechamento de maternidades em regiões remotas onde não havia o mínimo de um parto por dia, a alteração do regime de aposentadoria, que diminuiu o valor que os aposentados vão receber, ou a mudança da carreira dos professores, exigindo avaliação para que eles possam chegar ao topo - contra essa medida houve manifestações com um terço dos professores do ensino público na rua.

Em junho ocorreram eleições europeias, em que o PSD venceu o PS com uma vantagem de 4%. A partir daí criou-se a ideia de que a oposição ia vencer. Mas nos últimos 15 dias, a campanha do partido de centro-direita teve dificuldades para conseguir fazer passar sua mensagem.

Segundo o analista político Carlos Magno, o que trouxe a mudança foi a atitude do primeiro ministro. "A grande questão que fez virar as sondagens foi o próprio Sócrates. Ele não desistiu. Mesmo em uma situação difícil ele mostrou muita vontade de continuar."
Ele considera que uma das principais razões da virada nas intenções de voto se deve à atitude da líder do PSD: "A Manuela Ferreira Leite passou a pré-campanha e a campanha dizendo que Sócrates era mentiroso e o principal slogan de campanha era 'A Hora da Verdade', mas nos debates o primeiro-ministro mostrou que quem mentia era quem dizia que ele era mentiroso".

Um dos pontos altos da campanha foi quando surgiu na imprensa a informação de que o primeiro-ministro tinha mandado grampear os telefones e computadores da Presidência - o presidente é do PSD. O assessor do presidente que tinha passado a informação sem dar provas foi demitido e o partido apareceu como responsável pela tentativa de manipulação.

Brasileiros
Apesar de haver 107 mil brasileiros residentes em Portugal, nenhum deles se candidatou nessas eleições. "Só 1.300 têm a igualdade de direitos políticos, o que permite votar nas eleições", conta Gustavo Behr, presidente da Casa do Brasil, a maior associação de brasileiros em Portugal.

Atualmente, Portugal tem uma das legislações mais abertas a imigrantes da Europa, em que basta a pessoa pagar as contribuições para a Segurança Social e ter ficha limpa no registro criminal para poder obter a legalização. Mesmo assim, o número de brasileiros tem diminuído: "Estão regressando mais e chegando menos gente", diz Gustavo, que atribui esse fato à crise que atinge o país.

Nos últimos 20 anos, os governos do PSD adotaram legislações mais duras em relação à imigração do que os do PS.

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