Porto, bancos e lojas reabrem aos poucos no Haiti

Por Patrick Markey e Matthew Bigg PORTO PRÍNCIPE (Reuters) - As lojas começaram a reabrir na quinta-feira na devastada capital do Haiti, enquanto a busca por sobreviventes nos escombros do terremoto vai chegando ao fim e os esforços se voltam para a ajuda às multidões de feridos e desabrigados.

Reuters |

O porto de Porto Príncipe já recebeu os reparos necessários para reabrir parcialmente e receber ajuda humanitária, e uma embarcação holandesa já descarregava engradados de água, suco e leite longa-vida para caminhões no cais.

A ajuda está mais abundante, mas ainda era inadequada para alimentar e abrigar as pessoas que perderam suas casas e ficaram feridas por causa do tremor de magnitude 7 que atingiu Porto Príncipe no dia 12, matando até 200 mil pessoas.

"É miserável aqui. É sujo e chato", disse Judeline Pierre-Rose, de 12 anos, acampada em um esquálido parque em frente ao destruído palácio presidencial. "As pessoas fazem as necessidades em qualquer lugar aqui, e estou com medo de ficar doente".

Uma equipe de busca e resgate da Flórida deixou o Haiti na quarta-feira, e há relatos de que grupos da Bélgica, de Luxemburgo e da Grã-Bretanha fizeram o mesmo.

Equipes do Brasil, dos EUA e do Chile continuam trabalhando com cães farejadores nas ruínas do hotel Montana, onde uma lousa lista os nomes de dez pessoas encontradas mortas e de outras 20 ainda desaparecidas sob os escombros. Os técnicos pisam com cuidado, retirando o entulho com as mãos, mas já começam a usar máquinas pesadas para escavar a parte principal do hotel.

"Além de ser otimista é preciso ser realista, e depois de nove dias a realidade diz que é mais difícil encontrar pessoas vivas, mas não impossível", disse o major chileno Rodrigo Vásquez.

Mais de 13 mil militares dos EUA estão no Haiti e em 20 navios na costa. Soldados pousaram de helicóptero no jardim do arruinado palácio para apanhar feridos graves e levá-los para o navio-hospital USNS Comfort, que tem unidades cirúrgicas avançadas.

VOLTA À NORMALIDADE

Pequenas mercearias, barbearias e algumas farmácias voltaram a funcionar na cidade, algumas vendendo fiado. Os bancos devem reabrir na sexta-feira no interior e no sábado em Porto Príncipe, permitindo que a população saque dinheiro pela primeira vez desde o terremoto, disse à Reuters a ministra do Comércio, Josseline Colimon Fethiere.

Temendo que os EUA passem uma imagem arrogante ou agressiva, o presidente Barack Obama disse na quarta-feira que a Casa Branca está sendo "muito cuidadosa" na sua cooperação com o governo haitiano e com a ONU.

Nesta semana, o Conselho de Segurança da ONU aprovou por unanimidade o envio temporário de 2.000 soldados e 1.500 policiais adicionais para reforçarem a Minustah, força de paz da ONU no Haiti de 9.000 integrantes, sob comando do Brasil.

O terremoto deixou até 1,5 milhão de desabrigados, e o ministro do Interior, Paul Antoine Bien-Aimé, disse que cerca de 400 mil deles serão transferidos para novas aldeias a serem construídas fora da cidade. A primeira leva de 100 mil refugiados deve ser enviada para dez acampamentos provisórios perto da cidade de Croix Des Bouquets, ao norte da capital.

Soldados brasileiros da Minustah já estão fazendo a terraplanagem num local onde o Banco Interamericano de Desenvolvimento pretende ajudar a construir casas permanentes para 30 mil pessoas.

Por esse projeto, desabrigados poderão participar de frentes de trabalho para construir as próprias casas, trabalhando em troca de alimentos.

Hoje, muitos desses desabrigados estão amontoados em acampamentos precários, sem banheiros e dormindo ao relento - seja porque suas casas foram destruídas ou porque as pessoas têm medo dos tremores secundários, como os de magnitude 4,8 e 4,9 sentidos na quinta-feira na capital.

RECONSTRUÇÃO

O governo haitiano e seus parceiros internacionais estão agora voltando suas atenções para a reconstrução de longo prazo do país, que mesmo antes do terremoto já era caótico e miserável.

"Há progresso sendo feito", disse Jon Andrus, diretor-adjunto da Organização Pan-Americana da Saúde. "Pense naquilo com que começamos quando o mundo despencou no Haiti. Sem estradas, só destroços e cadáveres. Sem comunicação, só morte e desespero".

Mas a vida em Porto Príncipe ainda está longe de ser considerada normal ou minimamente funcional. Os hospitais continuam sobrecarregados, e há falta de anestésicos, obrigando os médicos a realizarem cirurgias dando apenas analgésicos locais a pacientes acordados.

A entidade Médicos Sem Fronteiras disse que em alguns centros cirúrgicos há uma fila de 10 a 12 dias para as operações, e que feridas não-tratadas estão apresentando infecções. "Algumas vítimas já estão morrendo de sepse", disse o grupo.

A ONU contabilizou quase 450 acampamentos de desabrigados só em Porto Príncipe, e pediu ao governo que comece a consolidá-los para agilizar a distribuição de alimentos.

O sistema de abastecimento de água da cidade funciona apenas parcialmente, mas caminhões-pipa começaram a entregar água em acampamentos improvisados, onde as pessoas fazem filas para encher seus baldes.

A violência e os saques diminuíram, já que as forças dos EUA fazem a segurança na distribuição de água e alimentos, e milhares de desabrigados seguiram a recomendação do governo para buscar abrigo na casa de parentes e amigos fora da capital.

(Reportagem adicional de Catherine Bremer, Joseph Guyler Delva, Natuza Nery em Porto Príncipe, Lesley Wroughton e Adam Entous)

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