Abraham Zamorano. La Paz, 16 fev (EFE).- Os porões da ditadura boliviana guardam as memórias das muitas pessoas que passaram por esses locais e que eram torturadas para delatar os companheiros de resistência, mas o atual vice-ministro de Regime Interior do Governo de Evo Morales, Marcos Farfán, quer expor os muitos dramas registrados nessas masmorras.

"Abriam a torneira para que caísse água e ligavam dois fios de corrente elétrica para pedir que uma pessoa falasse, exigindo que essa pessoa delatasse os companheiros", contou a autoridade, uma das vítimas das torturas nos porões do Ministério do Interior na Bolívia em 1972.

Na época, em plena ditadura do general Hugo Bánzer Suárez, Farfán tinha 16 anos e militava no Exército de Libertação Nacional, criado na Bolívia pelo guerrilheiro argentino Ernesto "Che" Guevara.

Agora, o vice-ministro de Regime Interior do Governo de Evo Morales é um dos responsáveis por jogar luz sobre as masmorras usadas para torturar dissidentes durante as ditaduras militares que governaram a Bolívia desde a década de 1960 até o começo dos anos 1980.

Pelos porões do agora chamado Ministério de Governo passaram mais de oito mil ativistas que foram submetidos a torturas nas celas cuja existência foi divulgada pela administração do esquerdista Morales.

O edifício, no centro de La Paz, é um pequeno e sóbrio bloco retangular, do qual pode ser visto apenas quatro modestos andares do lado de fora, mas que, em seu interior, oculta histórias de horror, até agora dissimuladas para forçar o esquecimento.

O vice-ministro explicou à Agência Efe que uma das primeiras coisas que fez ao tomar posse do cargo foi buscar no subsolo do ministério as dependências nas quais tinha ficado detido, mas não as encontrou.

"Quando comecei a trabalhar aqui, há quase dois anos, a primeira coisa que fiz, por curiosidade, foi ver onde eu tinha ficado detido.

Descobri que não existia nada. Parecia que tínhamos simplesmente sonhado", contou Farfán.

Por isso, acertou com o ministro de Governo, Alfredo Rada, que aproveitariam as obras que tinham previsto realizar no início deste ano para tentar encontrar os túneis nos quais tantos bolivianos tinham sido torturados.

"O momento não foi escolhido, foi uma casualidade. Quando começaram a derrubar as paredes, descobrimos uma grande quantidade de celas escondidas e tapadas", prosseguiu Farfán.

Para o vice-ministro, as masmorras tinham sido disfarçadas "certamente para ocultar esta parte da história boliviana" e para "fingir que ninguém as conhece".

Entre os estreitos muros dos quartos cheios de escombros e pó, Carlos Maita, um dos operários que trabalham na remodelação do edifício, contou à Efe como as celas ocultas foram descobertas.

Ele explicou que, ao golpear uma das paredes para derrubá-la, os trabalhadores perceberam que emitia um som oco. A descoberta começou assim.

"Uma cela de água, por exemplo. A enchiam de água fria, mas não a enchiam toda, colocavam só à metade até que falasse", afirmou o operário, enquanto guiava um grupo de jornalistas entre as sombrias estâncias do horror que descobriu junto aos colegas de trabalho.

No meio dos quase dois metros de escombros é provável que sejam encontrados os restos dos mais de 155 detidos durante as ditaduras que, segundo o vice-ministro, permanecem desaparecidos.

Ali, o método de tortura mais usado era trancar o preso nu em um quartinho e inundar o chão, para depois eletrificá-lo.

Isso nos porões, porque no segundo andar, onde ficavam os despachos do serviço de inteligência, eram aplicadas descargas elétricas sobre molares e genitais.

Segundo Farfán, ele foi detido uma noite, às três da madrugada, e levado aos porões do ministério, onde imediatamente começou a ser "espancado". "Nessa primeira noite foram somente golpes", explicou.

"Aqui nestas celas fiquei aproximadamente 15 dias. Daqui, me levaram ao segundo andar, onde funcionava o departamento de inteligência", no qual, segundo o relato do vice-ministro, as torturas se consistiam em "um trabalho mais sistemático".

Ele lamentou que, naquela época na Bolívia, "os detidos políticos estavam total e completamente às custas do que a repressão decidisse", sem que nenhuma organização de direitos humanos se ocupasse, sequer, de denunciar seus casos.

"Por isso é que foram assassinados muitos de nossos companheiros daquela época", acrescentou.

Farfán ressaltou que o Governo colocou nas mãos da Promotoria a investigação que tentará esclarecer, entre outras coisas, se ainda existem restos humanos enterrados nos porões do ministério no qual trabalha agora.

"A Promotoria está convocando peritos tanto nacionais quanto estrangeiros para que seja dado continuidade às escavações e se estabeleça se nestes túneis e nestes porões há gente enterrada, mortos, restos de detidos políticos", disse. EFE az/db

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