População de Yangun luta para recuperar serviços básicos afetados por ciclone

Ángel Escamis Yangun (Mianmar), 7 mai (EFE).- Com as próprias mãos, a população de Yangun, a maior cidade de Mianmar (antiga Birmânia), luta para recuperar os serviços básicos destruídos pelo ciclone Nargis, que em sua passagem pelo país deixou pelo menos 22 mil mortos e 41 mil desaparecidos.

EFE |

Em Yangun, onde vivem cerca de cinco milhões de pessoas, não há guindastes retirando das ruas os postes elétricos arrancados pelo ciclone, nem soldados e técnicos recolhendo cabos de alta tensão jogados pelas ruas desde o sábado passado.

Por quase todas as partes da cidade podem ser vistas pessoas com machados cortando troncos, alguns muito grandes, e moradores fazendo alavanca com paus para movimentar os pesados postes de cimento que caíram um após outro.

Na cidade, tomada pela escuridão, ainda não se sabe quantas semana ou meses terão que esperar até que voltem a ter eletricidade.

"Quem sabe três ou seis meses. Antes os blecautes eram de vários dias, mas desta vez temo que possa durar muito tempo", disse Ohn Gawn, um morador da parte alta de Yangun, área menos afetada pelo "Nargis" onde residem os birmaneses com mais recursos.

A Junta Militar que governa o país também parece não ter idéia de como remediar a situação. O Ministério da Informação emite várias vezes o mesmo boletim através de uma rádio estatal local, no qual ressalta uma melhora na situação de Yangun, e a entrega de ajuda para a população do delta do rio Irrawaddy, devastada pelo ciclone.

A superpovoada e empobrecida região do delta, onde mais de 41 mil pessoas foram dadas como desaparecidas, dispõe apenas de um aeroporto com capacidade para receber aviões de carga. Muitas das áreas da região, antes de acesso já complicado, seguem praticamente isoladas devido à destruição de vias férreas e estradas.

Além disso, as barcaças, típico meio de transporte usado no rio Irrawaddy e necessárias para distribuir o material de emergência entre os desabrigados, afundaram ou foram destruídas pelo temporal.

"A ajuda à região do delta está chegando a conta-gotas. Não existem recursos nem infra-estrutura para levá-la até lá", explicou à Agência Efe um birmanês membro de uma das poucas organizações humanitárias internacionais autorizadas pelo regime a trabalhar no país.

Segundo a imprensa estatal, a zona mais devastada é a região de Bogalay, a cerca de 90 quilômetros de Yangun. Lá, só é possível chegar navegando ou através de um helicóptero.

Em Bogalay, onde morreram mais de dez mil pessoas e cerca de 95% das construções foram destruídas, a distribuição de plásticos para servir como tendas de campanhas, de água e de alimentos é feita a pé ou em charretes.

A Junta Militar impôs, em 2006, restrições ao deslocamento dos trabalhadores de agências de ajuda ligadas às Nações Unidas. Estas agências claramente não têm a estrutura necessária para realizar uma operação humanitária do porte que é necessário.

O mesmo acontece com as três ONGs estrangeiras aceitas pelo regime, que reclamam de uma total falta de recursos.

No escritório de ajuda da Comissão Européia, localizada próxima ao Hotel Palace Kandawgyi, chega eventualmente algum carro diplomático e olhando de fora, não se vê muita atividade lá dentro.

As famílias da antiga capital Yangun que perderam suas casas estão acampadas em terrenos baldios, onde com vários paus e galhos de árvores suportando um plástico que serve como teto, tentam agüentar o intenso calor durante o dia e as fortes chuvas que caem durante a noite.

Por causa da falta de água corrente, as embaixadas, residências diplomáticas e hotéis não tem mais reservas e decidiram racionar água.

As autoridades aumentaram a presença policial nas proximidades da estação central de ferrovias de Yangun, aonde chegam trens com plástico e outros materiais para serem distribuídos entre os desabrigados.

Também foi reforçada a segurança na parte antiga da cidade, onde, em setembro, aconteceram manifestações pacíficas pela democracia lideradas pelos monges budistas. EFE mfr/rr/gs

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