Política de alta definição

É quase um consenso que o discurso político, principalmente após o esvaziamento ideológico das cartilhas partidárias, abstraindo-se os efeitos concretos decorrentes de sua estratégia dissimulada, continua sendo o mesmo de séculos ou pelo menos pouco ou quase nada inova no trato da equação discurso x ação e vice-versa.

Cândido Rolim |

Há, no entanto, alguns que ainda sonham algo como uma política com P maiúsculo, como Hudson Carvalho em seu artigo um tanto fatalista o fim da política ( http://antoniocicero.blogspot.com/ ) que vê no espaço político atual um lugar de perdição, corrupção e vícios.

É certo que as eleições americanas pautam-se menos em um enfrentamento ideológico que no propósito claro e objetivo de quem vai devolver a super-potência ao comando do mundo e seu equivalente metonímico quem vai melhorar o nível de vida e devolver a segurança do cidadão da América.

Percebe-se que a mídia em geral e os veículos de comunicação e cultura (incluindo aí a revista Sibila ), ao abordarem aquele torneio sucessório, parece que se referem a alguma quintessência, a uma complexa e sutil engrenagem, azeitada por uma cadeia de gestos e personas-chaves, transbordantes de e para todos os discursos (veja, por exemplo, as comparações metalingüísticas dos discursos de Obama-poesia e McCain-prosa), como se de fato fossem nos atingir as lascas daquele grande palanque. Tanto o sorriso de Obama quanto o gesto mecânico do patriotíssimo McCain nos emociona e nos preocupa como bombas-relógio instaladas ali na sala, embora nenhum desses prediquem a certeza de um lance que nos aproveite tanto quanto as próximas prosaicas eleições municipais brasileiras.

Abstraindo esse macro-cenário, como num passe de mágica, a política global e seu discurso fajuto passa a não ser vista mais como um rarefeito âmbito de conchavos e descarado pragmatismo. Algo (uma nova utopia? O brilho das convenções?) parece maquiar os frames dessa película e a pele de seus agentes/atores. Cria-se uma bolha discursiva onde se imantam de gravidade e relevância os temas. Com certeza, na contracorrente desse clímax mais midiático que político, não é isso que prende a atenção, nem é o que aciona o transe das opiniões que, em sua maioria, repetem dogmas antigos à exaustão (democracia, liberdade, dignidade, culto à razão, etc). Assim, pensar um contexto onde esse mero afresco de personalidades fosse relegado a um terceiro plano ou, pelo menos, posto sob suspeita, a essa altura seria já uma razoável utopia.

Estranha-se tanta sutileza, tanta importância dada a essa política que, dado o espelho hiperbólico com que é refletida, fulmina a própria idéia de política como ferramenta de mudança. A menos que se tome uma idéia mais imediata e mercadológica da eleição, não se compreende tanta alta indagação quando se tem tão somente interesses econômicos envolvidos. Fato é que, apesar do desinteresse do americano por suas próprias eleições, as emoções e surpresas foram intensas até agora, mas ainda não se esgotaram (palavras do correspondente Caio Blinder, em artigo de 05/09/08 , no portal Último Segundo).

Curioso também que nenhuma linguagem mais direta, nenhum gesto de desencanto ou indignação, a contrapelo da mídia, é coartado para descrever os cenários e a trama dessa política altissonante: articulistas, repórteres, correspondentes, analistas, mídia, cumprem um ritual de pisar em ovos ou, pior, não conceder à cena sequer o dízimo de um comedimento crítico. De tudo isso, tem-se a impressão de que estamos diante de uma política de alta definição, quando comparada àquela outra chinfrim, resultado da tosca pauta de reivindicações que nos consome aqui mesmo, neste corrompido nicho de reivindicações (e representação) analógicas que passa longe do crivo das análises (e nem é por falta de matéria prima e alguma tensão). Pesando a fundo, parece haver em derredor dessa discussão autorizada uma política que não é política; a importância do discurso - para ficar só no ponto visível das chamadas, é dada pelo pedigree e pela repercussão personalíssima dos candidatos. Ninguém ousa por o dedo na idéia dessa política ou ir um pouco a fundo na raiz desses gestos envolventes, presidenciáveis.

É de se perguntar, portanto: se a estratégia eleitoreira leva a que os discursos políticos sejam idênticos em sua desfaçatez (aqui e lá), repetidos pelos mesmos figurantes, mesmos gestos e artifícios de persuasão, por que a cena política americana, cuja polarização partidária é, digamos, opalescente, desperta tanta frivolidade? O que faz aquele pleito digno de maior atenção, se suas implicações humanitárias são mais que previsíveis e seu lema, para ser breve, é ultra-nacionalista (USA em 1º lugar)?

Causa certa surpresa que o desencanto que se devota à estratégia política em geral, não tisne o discurso jornalístico e midiático que cobre a corrida presidencial americana, ainda que se refira a uma super-potência econômica e militar ou, principalmente, por isso mesmo. Por outro lado, notável também como o fastio pela política e seu canto de degradação, ao que parece, viceje mais na crônica que cobre as repúblicas nanicas, onde a política é vista, não sem razão mas sem nenhum alívio, como ferramenta de opressão, ditaduras, fraudes e corrupção de todo gênero; esses produtos e o truculento discurso que lhes serve de estofo parecem ser relevados quando a pauta é sucessão presidencial americana.

Em síntese, em face da indolência acerca da problemática dos mundos excluídos (e é possível afirmar seguramente que estes ainda existem!), a política de um país não periférico é virilizada ao extremo a ponto de ser lida como legítima em si mesma, inquestionável e insuspeita em seu jogo de estratégia, o que as discretas ressalvas dos cronistas (pego como exemplo o artigo do Régis Bonvicino, " Em Defesa da Poesia ") não conseguem disfarçar. Não se trata de, empurrando a política para o côvado de sua ética estelionatária, ressuscitar adágios tipo a César o que é de César, nem utilizar-se da mesma retórica daquela linguagem, vista como um estágio ruidoso em vista do poder, mas pelo menos de tomar os gestos políticos como de fato o são na maioria dos casos: dissimulação operosa, ríctus de um rosto postiço: o olho vidrado no cetro do poder, jogo famélico sufocante, se visto desde a economia de seus meios até o resultado de suas intenções.  

Sob esse prisma, questões e afirmações do tipo O que fará Obama no Afeganistão? O mesmo que Bush?, a política de Obama é prosa ou poesia? ou as propostas de Obama são prosa racional retro-alimentam uma irritante máquina de chavões e questões falsamente políticas ou identitárias, como se um jogo lingüístico pudesse desviar a questão de fundo, a rigor, também falsamente globalizada (a marcha racional anti-guerras, a diáfana preocupação com a redução dos 95% dos impostos dos trabalhadores estadunidenses, etc).

O evento Obama x McCain, em certa medida revolve uma perspectiva utópica que deveria ir mais além do fato um negro na presidência que, fosse a polis de fato democrática e livre de ranços primitivos, escumações raciais e retaliações traiçoeiras, nem sequer ocuparia um primeiro plano (o artigo do Ronald Augusto toca de leve esse ponto). Mas, vale lembrar, esse alento é diluído quando se pensa que as linhas programáticas dos partidos exacerbam e logo ali convergem na busca de recuperar o prestígio nacional perdido. Afinal, no horizonte do programa de governo real, opressão, retaliações, embargos econômicos, boicotes, nada parece discrepar dos últimos exemplos da administração americana, baseada em doutrinas retrógradas, anti-ecológicas e predatórias. De qualquer sorte, o absurdo de tudo é que nossa atenção, açulada pela mídia, é consumida sobre um quadro de tensões sem referencial. Algo intangível nos imobiliza. Uma mórbida preocupação com o cismar alheio nos massacra pela fixação passiva e impotente em cada etapa do alheio processo e tudo com a certeza de que tanto o transcurso quanto suas conseqüências serão insuficientes para contradizer a idéia mais ou menos elaborada do que já prevíamos.

Cândido Rolim é poeta e autor de Pedra Habitada (AGE, Porto Alegre, 2002), Fragma (FUNCET, Fortaleza, 2007) e Camisa Qual, Éblis (Porto Alegre, 2008).

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