Política cultural é diferencial do cinema argentino

Incentivos para produção e formação favorecem sucesso mundial, como mostra a recente vitória de ¿O Segredo de Seus Olhos¿ no Oscar

Marco Tomazzoni, iG São Paulo |

© AP
Equipe do filme "O Segredo dos Seus Olhos" recebe o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
A segunda vitória argentina na categoria de melhor filme estrangeiro do Oscar, em março, com “O Segredo de Seus Olhos”, deixou muita gente com uma interrogação no rosto. Sim, é ótimo que um país latino-americano triunfe em território hollywoodiano, a maior vitrine mundial, mas por que o Brasil não desfruta desse mesmo reconhecimento e é raramente indicado? Ou melhor: por que o cinema argentino é melhor do que o brasileiro?

As respostas a essas perguntas são sem dúvida parciais, mas servem para revelar uma discussão muito maior: o quanto os incentivos para produção e formação de profissionais são cruciais para o sucesso.

O número de estreias de longas-metragens nacionais na Argentina e Brasil é estável desde 2007 e gira em torno de 80 por ano. A princípio, pode até parecer que os dois países estão em pé de igualdade. Mas quando se considera que o Brasil é três vezes maior do que o vizinho territorialmente e tem quase cinco vezes mais habitantes, fica claro o desnível: proporcionalmente, a indústria cinematográfica argentina é muito mais sólida do que a nossa.

A explicação é simples e passa pelo indispensável apoio governamental. Enquanto os produtores brasileiros se voltavam na década de 1940 para a indústria própria, tentando emular Hollywood com as companhias Cinédia e Vera Cruz, a Argentina estabelecia leis de proteção ao audiovisual.

Além disso, em 1957 o país criou o Instituto Nacional de Cinematografia e uma escola de formação. O instituto, autônomo, intermediava créditos bancários aos realizadores e era bancado por um fundo de desenvolvimento polpudo, que recebia 10% do valor de cada ingresso vendido no país.

A situação se profissionalizou em 1994, quando as leis do setor foram aperfeiçoadas e se criou o Instituto Nacional de Cinema e Artes Audiovisuais (INCAA), o verdadeiro divisor de águas. Paradoxalmente, enquanto o governo adotava uma postura neoliberal e desregulamentava a economia, mantinha o protecionismo e incentivos à produção cinematográfica. O maior indício disso foi que o fundo de fomento, além de receber 10% do valor de cada ingresso vendido, passou a receber também 10% da venda e locação de qualquer filme.

Parece um prato cheio para um governo repleto de políticos com tradição tão corrupta quanto a nossa, mas, a partir de 2002, o INCAA passou a administrar diretamente os recursos. Essa independência garantiu uma série de regalias – existem incentivos para a estreia de filmes nos cinemas, com verba para confecção de cartazes e trailers, e subsídios para o lançamento posterior em DVD. Além disso, se o longa for aprovado por uma comissão e tiver “relevância”, a diferença do valor arrecadado em bilheteria e o total do orçamento é entregue aos realizadores para saldar as dívidas de produção.

Divulgação
O ator Ricardo Darín, em cena de "O Segredo de Seus Olhos"

Mas de nada adiantaria aumentar o número de filmes produzidos se não houvesse como exibi-los, e aí entram os Espaços INCAA, convênio com repasse de recursos que o instituto mantém com salas do circuito comercial para que elas projetem produções argentinas e latino-americanas, incluindo curtas-metragens. O ciclo se fecha com os centros de formação – como a Escola Nacional de Experimentação e Realização Cinematográfica, vinculada diretamente ao INCAA –, celeiro da nova geração do cinema argentino, como Pablo Trapero, Lucrecia Martel e Lisandro Alonso.

Situação no Brasil

O Brasil também tem um passado rico em protecionismo: as primeiras leis que garantiam espaço para filmes brasileiros nas salas datam da década de 1930, e o Instituto Nacional de Cinema, precursor da Embrafilme, surgiu em 1966. O problema é que nenhum desses órgãos, sempre discretos, teve atuação incisiva na produção e repasse de recursos e, mesmo com a criação da Agência Nacional do Cinema (Ancine) em 2001, o cenário atual é completamente dependente das leis de renúncia fiscal.
As alterações na Lei Rouanet, que vão constituir a Nova Lei da Cultura, preveem a criação de fundos específicos para as diversas áreas culturais, mas o projeto, atualmente em tramitação na Câmara dos Deputados, ainda enfrenta sérias críticas.

Portanto, mais do que cacoetes temáticos – como a alardeada preferência por histórias de violência e favela –, o cinema brasileiro tem carência estrutural, coisa que a Argentina tem procurado resolver com objetividade há muito mais tempo. Diretores, roteiristas, atores, produtores e técnicos de qualidade não faltam por aqui. Até o público resolve aparecer eventualmente (ainda que quase exclusivamente às produções com a marca Globo Filmes). Se a ideia é tentar se igualar ou superar os argentinos no cinema, se é que se pode falar nesses termos, a discussão, agora, precisa ser pontual.

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