Polícia iraniana volta a dispersar manifestações perto de universidade

Teerã, 9 jul (EFE).- Apesar das advertências da Polícia e de um forte esquema de segurança, milhares de iranianos protestaram hoje nos arredores da Universidade de Teerã, palco há dez anos do primeiro grande abalo sofrido pelo regime nascido da Revolução Islâmica.

EFE |

Chegando em carro, a pé ou em motos por meio de nove rotas diferentes, desafiaram o Governo e trataram de se concentrar perto da praça Enguelab, no centro da cidade, tomada pela Polícia e por grupos de voluntários islâmicos Basij.

A manifestação tinha sido proibida pelas autoridades, que tinham advertido que as forças de segurança adotariam a mesma contundência utilizada para impedir os recentes protestos contra a polêmica reeleição do atual presidente, Mahmoud Ahmadinejad.

As autoridades já tinham advertido há duas semanas que as manifestações eram ilegais, e que, portanto, a imprensa estrangeira teria seu direito à informação cerceado.

Mesmo assim, um grande número de pessoas se aproximou nesta quinta-feira da praça Vali Asr, do parque Laleh e das avenidas que desembocam na simbólica praça Enquelab.

Testemunhas indicaram que em alguns locais a Polícia lançou gás lacrimogêneo e realizou várias detenções. As forças de segurança também teriam apreendido telefones celulares de pessoas que gravavam os protestos.

A maioria caminhava na região, e, embora tivesse dificuldades para se reunir em um só ponto, deixava claro qual era o objetivo de sua presença no local, acrescentaram as testemunhas.

A manifestação tinha sido convocada pela internet para relembrar a invasão policial à residência estudantil na madrugada de 9 de junho de 1999.

Há uma década, milhares de estudantes tinham se concentrado no campus para protestar contra o fechamento do jornal reformista "Salaam" e contra uma lei aprovada pelo Parlamento que restringia a liberdade de opinião.

A repressão policial teve como saldo um morto, centenas de feridos e milhares de detidos.

"Acho que aquela mobilização foi importante, porque pela primeira vez (desde a revolução) nos demos conta de que podíamos sair para protestar", lembrava dias atrás um estudante que participou dessas mobilizações.

Nos últimos dias, muitos traçaram paralelismos entre o episódio que também ficou conhecido como "Praça da Paz Celestial iraniana" e a onda de protestos que abalou o país desde o anúncio da vitória de Ahmadinejad, acontecimento este que a oposição considera fraudulento.

Logo após a divulgação do controvertido resultado, centenas de milhares de pessoas foram às ruas, em passeatas que foram reprimidas brutalmente.

Segundo números oficiais, nas últimas três semanas de protestos morreram pelo menos 20 pessoas, centenas ficaram feridas e houve milhares de detenções.

"A grande diferença com a situação atual é que naquela época a população se mostrava distante. Simplesmente olhava. Agora decidiu participar", explica um universitário que pediu anonimato.

Analistas coincidem em apontar que as duas mobilizações, separadas por uma década, nascem de um sentimento comum: a frustração da população, e especialmente dos jovens iranianos.

Em 1997, uma onda de esperança havia levado o reformista Mohamad Khatami à Presidência do país.

Mas vários impedimentos colocados pelos conservadores, unidos à falta de progressos tangíveis trouxeram à tona um clima de desengano que eclodiu perto de dois anos depois no campus.

Dez anos depois, a mesma corrente de esperança tinha tomado conta da candidatura do ex-primeiro-ministro Mir Hussein Mousavi, apoiado pelo próprio Khatami e outros líderes reformistas.

No entanto, a surpreendente vitória de Ahmadinejad - apoiado pelas forças conservadoras do regime - suscitou um novo clima de desencanto.

"Acho que agora o sentimento se calou mais. O povo perdeu o medo e manterá o desafio", afirma o mesmo estudante.

Mousavi anunciou esta semana que dará continuidade a seus protestos "pelas vias legais" e afirmou que o futuro Governo de Ahmadinejad "carece de legitimidade".

Um dia antes, clérigos e políticos reformistas iranianos pediram ao ex-primeiro-ministro que liderasse uma plataforma política.

No entanto, as forças conservadoras não parecem dispostas a ceder, e solicitaram ao Poder Judiciário que empreenda ações legais contra Mousavi e contra os reformistas por terem criado insegurança e distúrbios.

O líder supremo da revolução, aiatolá Ali Khamenei, que defendeu o triunfo de Ahmadinejad, reconheceu na segunda-feira as diferenças, mas pediu aos iranianos que mantenham a unidade e saibam distinguir quem são os amigos e quem são os inimigos. EFE jm/fr

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