Polícia cancela concurso de beleza gay na China

A final do primeiro concurso de beleza gay na China foi cancelado pela polícia local nesta sexta-feira. Rayn Dutcher, um dos organizadores do evento, disse em entrevista à BBC que a polícia apareceu ordenando o cancelamento do concurso momentos antes de seu início.

BBC Brasil |

"Nós estávamos nos preparando para começar o evento nesta noite quando a polícia apareceu", conta. "Nos informaram que não tínhamos a licença apropriada para aquele tipo de evento e que, portanto, teríamos de cancelá-lo."
Oito candidatos iriam disputar o título de "Mr. Gay China", que dá direito a representar o país na final mundial do concurso em Oslo, na Noruega, no mês que vem.

Todos eles são jovens chineses que preenchem critérios básicos como ter altura mínima de 1,70m, não possuir antecedentes criminais e falar inglês com fluência.

Segundo Dutcher, não é a primeira vez que as autoridades chinesas cancelam um evento sob o argumento de que a licença não era adequada. "Eles já haviam interferido no festival Shanghai Pride em junho de 2009 e em outros eventos com a mesma alegação", diz.

Sobre o concurso desta sexta-feira, ele confirma que por enquanto está cancelado. "Mas estamos tentando resolver a situação com as autoridades para retomar o concurso", avisa.

Preconceito
Os organizadores disseram no site do evento esperar que o concurso "contribua positivamente para o desenvolvimento da comunidade homossexual" e chame atenção para a minoria no país.

Até 2001, o homossexualismo era considerado doença mental pelo governo e manter relações com pessoas do mesmo sexo era proibido por lei até 1997.

Ainda hoje, os homossexuais no país enfrentam resistência e preconceito.

Nos últimos tempos a liderança comunista vinha demonstrando maior tolerância com os gays ao dar mais espaço na imprensa estatal para coberturas sobre assuntos ligados à comunidade.

Há poucos dias, o diário oficial China Daily trouxe estampado na capa uma foto do primeiro casal gay a celebrar sua união no país.

Zeng Anquan e Pan Wenjie se "casaram" em uma cerimônia em Chengdu, na província de Sichuan no dia 3 de janeiro.

A união, entretanto, não tem validade legal, pois ainda não existe no país leis que reconheçam o matrimônio entre pessoas do mesmo sexo.

"Milhares de gays e lésbicas casam na França, Finlândia, Reino Unido. Por que nós não podemos nos casar também?", questionou Zeng no China Daily.

Numa outra demonstração recente de simpatia com o movimento gay, a imprensa estatal cobriu com destaque a inauguração do primeiro bar gay organizado com verbas estatais.

O estabelecimento foi aberto na província de Yunnan para servir de ponto de encontro à comunidade e concentrar iniciativas de educação e prevenção contra HIV.

A abertura do bar atraiu tanto interesse da imprensa internacional que teve de ser postergada do dia 1º para o dia 18 de dezembro.

Assédio
O assédio da imprensa é uma novidade para a comunidade gay da China.

Falando brevemente ao telefone com a BBC Brasil, um dos organizadores do Mr.Gay, Ben Zhang, disse que "já houve problemas demais" porque jornalistas utilizaram imagens do site do evento sem permissão.

Segundo o China Daily, Zhang disse que os competidores não queriam ter a imagem deles amplamente divulgada, mas a imprensa internacional não respeitou isso.

Zhang afirmou ao jornal inglês The Guardian que a intenção de evitar o assédio da imprensa é por temer que autoridades mais conservadoras se oponham ao evento.

O homossexualismo "ainda é um assunto sensível", reconheceu Zhang.

De acordo com dados oficiais de 2004, existem cerca de dez milhões de homossexuais no país, mas estimativas informais mais atuais calculam o total entre 36 e 48 milhões. A população total do país é de 1,32 bilhão.

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