Polêmica sobre fraude em eleições gera reações no Irã

Javier Martín. Teerã, 14 jun (EFE).- Teerã amanheceu novamente tomada pela Polícia e grupos de milicianos islâmicos Basij, que prenderam mais de 100 seguidores do candidato opositor Mir Hussein Moussavi, que denunciou hoje oficialmente a fraude nas eleições realizadas na sexta-feira e pediu sua anulação.

EFE |

Em carta enviada ao poderoso Conselho de Guardiães - órgão que deve validar os resultados - o ex-primeiro-ministro acusou o Ministério do Interior e o reeleito presidente Mahmoud Ahmadinejad de terem "influenciado no resultado".

"Levando em conta as dezenas de cartas que minha plataforma enviou a este Conselho em relação com os claros casos de fraude eleitoral por parte do Ministério do Interior, assim como um dos candidatos, que influíram no resultado, as eleições não são limpas e devem ser canceladas", afirmou Moussavi.

Na carta, divulgada através de seu site, o candidato enumerava as irregularidades denunciadas por seus seguidores e insistia que o ocorrido ameaça os pilares da República Islâmica.

Pouco depois da publicação da carta, o site do candidato foi censurado pelas autoridades iranianas.

Horas mais tarde, em uma grande entrevista coletiva concedida no palácio presidencial, Ahmadinejad voltou a negar a fraude e acusou a imprensa internacional de se intrometer nos assuntos internos do Irã e de transmitirem uma imagem falsa do país.

O presidente minimizou, além disso, os protestos que, desde o fim das eleições, têm acontecido na capital e outros pontos do país. O presidente reeleito disse que são "naturais" e os comparou à frustração que muitos torcedores sentem quando seus times perdem uma partida de futebol.

Com o mesmo tom, respondeu aos rumores que circulam pelo país de que Moussavi estaria sob prisão domiciliar, notícia que sua mulher, Zahra Rahnavard, desmentiu horas depois, em declarações dadas à agência americana "Voice of America".

"Quando termina uma partida, alguns, levados pelo fervor e a emoção, cometem infrações. No Irã, quando alguém comete uma infração, é detido pela Polícia, seja essa pessoa um ministro ou qualquer outro cidadão", afirmou depois de ser perguntado se ele garantia que Moussavi estava seguro.

"Mas tudo está muito tranquilo, muito bem no Irã", assegurou o líder.

Segundo fontes da oposição, nos últimos dias, as Forças de Segurança iranianas prenderam centenas de pessoas, entre elas vários membros da oposição reformista, alguns, inclusive, ex-ocupantes de altos cargos em Governos anteriores.

Entre os detidos estão Abdula Ramezanzadeh, ex-vice-ministro de Exteriores durante o Governo do ex-presidente Mohammad Khatami e o diretor-geral da plataforma política pró-reformista "Frente de Participação", Mohsen Mirdamadi, confirmaram as fontes à Agência Efe.

Também foi preso Mohamad Reza Khatami, irmão do ex-líder, embora tenha sido libertado pouco depois, segundo informou sua família à Efe.

As suspeitas de fraude geraram uma onda de protestos em Teerã, onde a Polícia e os milicianos Basij tomaram as ruas para reprimir as manifestações.

Armados com paus e cassetetes, os grupos têm patrulhado toda a cidade e começaram a montar postos de controle em ruas e praças da capital e de outras regiões do país.

"Meus filhos foram agredidos ontem à noite. Simplesmente voltavam para casa e um grupo de Basij os parou e bateu em suas cabeças e corpos sem perguntar", afirmou hoje à Efe uma empregada doméstica, no centro de Teerã.

Nos arredores da Universidade de Teerã, no sul da cidade, a Efe foi testemunha de enfrentamentos entre grupos de estudantes e policiais, que utilizaram gás lacrimogêneo e cassetetes para dispersar os manifestantes.

"Não aceitaremos esta fraude. Eles não vão conseguir nos deter.

Fora ditador!", respondeu um dos agredidos.

No norte da cidade, na Avenida Niavarán - que durante a campanha eleitoral foi uma das artérias preferidas dos partidários de Moussavi -, grupos de jovens entraram em choque com as patrulhas Basij gritando "morte ao tirano".

Quase ao mesmo tempo, Ahmadinejad comemorava sua vitória na famosa Praça de Vali-e Aser, onde milhares de pessoas se reuniram esta tarde para apoiar a polêmica eleição do presidente.

Na praça o grito era muito diferente: pediam a saída do ex-presidente Ali Akbar Hashemi Rafsanjani do país, um dos homens mais poderosos do Irã, a quem o líder acusou de corrupção e complô para derrubar seu Governo. EFE jm/pd

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