Patricia Souza. Tóquio, 29 ago (EFE).- Nas eleições legislativas deste domingo no Japão, a população poderá escolher entre o continuísmo na política externa japonesa e uma relação menos dependente em relação aos Estados Unidos, mas é pouco provável que o próximo chefe de Governo consiga dar ao ao país o peso que merece no cenário internacional.

O governista Partido Liberal-Democrático (PLD) e o opositor Partido Democrático (PD), favorito em todas as pesquisas, chegam às urnas com propostas já prontas sobre a relação do Japão com Washington, que considera Tóquio sua "pedra angular" na Ásia.

O candidato da situação defende o "status quo" entre os dois fortes aliados, visto pelos críticos como um servilismo da segunda maior economia do mundo.

A oposição, por sua vez, prega um distanciamento entre as partes, que incluiria o fim do apoio logístico japonês ao conflito no Afeganistão e a revisão do status dos cerca de 50.000 militares americanos no Japão.

Yukio Hatoyama, o candidato da oposição, abriu a campanha com o leve discurso antiamericanista que durante anos caracterizou o PD.

Porém, desde que as pesquisas passaram a apontá-lo como vencedor do pleito, suavizou ainda mais suas declarações.

Numa recente entrevista coletiva concedida à imprensa estrangeira, Hatoyama disse que sua intenção é reorientar as relações com os EUA para que o Japão tenha "mais iniciativa". Outra intenção é reforçar o diálogo do país com seus vizinhos asiáticos, como China e Coreia do Sul.

O opositor também disse que se sente confortável com a figura do atual presidente americano, Barack Obama, a quem se referiu como "um homem corajoso" por pedir um mundo livre de armas nucleares.

Assim como o atual ocupante da Casa Branca, o líder da oposição japonesa se diz contra as armas nucleares, algo que considera uma "missão moral" para o único país do mundo atacado com bombas atômicas.

Hatoyama também fala de transformar em lei os três princípios "não-nucleares" do Japão: os de não-produção, não-circulação e não-armazenamento.

O PLD, de tendência conservadora, é mais ambíguo. Embora se oponha publicamente às armas atômicas, não fez muito para sair debaixo do guarda-chuva nuclear americano.

Ambos os partidos divergem ainda em relação à visão que têm do passado do Japão, sobretudo no que diz respeito ao polêmico templo Yasukuni, que honra a memória dos soldados japoneses mortos em conflitos, entre eles 14 criminosos de guerra.

Hatoyama quer um monumento sem alusões religiosas para honrar os militares mortos. Durante a campanha, ele chegou a afirmar que não visitará Yasukuni.

O atual primeiro-ministro, Taro Asso, também não o fez, mas a ida ao templo de membros de destaque do PLD, como o ex-premiê Junichiro Koizumi, irritou a China e a Coreia do Sul, os mais prejudicados pelo militarismo japonês no século XX.

No que se refere à imigração, Hatoyama acha "inevitável" que o Japão abra suas portas e favoreça o retorno de cerca de um milhão de estrangeiros com vistos de permanência, algo a que o PLD se opõe.

A mudança climática é outro tema em torno do qual os dois partidos mantêm divergências. Enquanto a legenda da situação propõe que até 2020 as emissões de CO2 sejam reduzidas em 15% em relação aos níveis de 2005, o PD defende uma redução de 25% frente aos patamares de 1990.

De um jeito ou de outro, é pouco provável que o próximo premiê japonês consiga, pelo menos de imediato, recuperar o peso internacional do país, um dos que mais dinheiro doa às instituições multilaterais, mas que sequer é membro permanente do Conselho de Segurança da ONU. EFE psh/sc

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