Plano de mesquita em Nova York expõe vulnerabilidade muçulmana

Aumento de ataques contra muçulmanos e dificuldade de integração causam reações mistas sobre centro perto de Marco Zero do 11/09

Marsílea Gombata, iG São Paulo |

Em vez de motivo de orgulho, o projeto de um centro islâmico com uma mesquita em Nova York tornou-se um problema para a comunidade muçulmana dos EUA. Sob holofotes e alvo de protestos inflamados, o plano de erguer o centro a duas quadras do Marco Zero, onde ficavam as Torres Gêmeas atacadas no 11 de Setembro de 2001, frustra as expectativas de que a construção simbolize a tolerância religiosa e causa reações mistas entre os muçulmanos.

Para o cientista político argelino Azzedine Layachi, da St. John’s University de Nova York, o centro é uma boa ideia no momento e lugar errados, tendo o potencial de deixar a comunidade islâmica mais exposta e vulnerável nos EUA. “Há um crescimento de ataques contra muçulmanos nas últimas semanas e essa situação poder piorar dependendo de como o projeto se desenvolver”, disse ao iG .

AFP
Placas na frente da igreja Dove World Outreach Center, liderada pelo pastor radical Terry Jones, na Flórida
Segundo Layachi, o projeto da mesquita e a ameaça do pastor evangélico Terry Jones de queimar 200 exemplares do Alcorão para marcar o nono aniversário do 11 de Setembro aumentaram a tensão entre os muçulmanos. “No momento em que se celebra o fim do Ramadã, muitos têm medo de sair às ruas, viajar com seus trajes tradicionais, de se mostrar”, disse. “Não acredito que mais pessoas ficarão do nosso lado com o centro islâmico. Isso depende mais se a mentalidade de quem se opõe pode mudar”, afirmou.

Apesar de a localização ser um dos principais argumentos de quem se opõe à construção do centro islâmico - com uma academia, lanchonete e uma sala de orações –, há quem afirme que a mudança de localização não acalmará os ânimos. “Se for dez quadras para lá ou para cá não fará diferença. O problema da islamofobia continuará”, observou Saeed A. Khan, da Wayne State University, em Detroit.

Na análise que faz da sociedade americana atual, o especialista enxerga um país muito mais ressentido com sua realidade do que com uma religião. “As pessoas estão frustradas com a situação econômica, com imigração ilegal no Arizona. A sociedade americana está longe do que gostaria de ser: uma maioria branca, cristã, cujo idioma resume-se ao inglês”.

A opinião é compartilhada por Khalilah Sabra, da Sociedade Muçulmana Americana, em Washington, que aponta que o centro expõe a dificuldade de integração dos imigrantes muçulmanos nos EUA. “Diferentemente de irlandeses católicos e judeus a quem foi ‘dada’ legitimidade, o Islã continua a ser perseguido como uma ameaça ao multiculturalismo nos EUA. Isso faz com que muitos, por exemplo, não busquem se tornar cidadãos americanos, ainda que tenham direito.”

Uso eleitoral

A dois meses das eleições legislativas que definirão se o governista Partido Democrata manterá a maioria no Congresso, muitos indicam que a polêmica desatada pelo projeto é alimentada por empresários e políticos interessados em ganhos eleitorais. “Algumas pessoas estão usando o debate para trazer mais dinheiro para a campanha”, afirmou Layachi, da St. John’s University.

Robert Shedinger, do Departamento de Religião do Luther College, em Iowa, concorda. Segundo ele, o sentimento anti-islamismo tem explodido pelos EUA fomentado por políticos que estimulam o medo de alguns americanos pelo Islã como estratégia para vencer as eleições de novembro. “Os muçulmanos passaram a ocupar uma posição ruim depois do 11 de Setembro, mas essa onda islamofóbica deve baixar depois de novembro e voltar com força quando nos aproximarmos das eleições presidências de 2012”, disse.

Hora errada?

Afinada com Layachi, os muçulmanos que se opõem à construção do centro islâmico questionam se ainda não é cedo para pensar em uma reconciliação dos EUA com o Islã. “Para alguns, trata-se do lugar errado na hora errada, porque ainda está tudo muito fresco. Apoio a ideia de que seja construído, mas não necessariamente tão perto de onde ficavam as Torres Gêmeas. Também não acredito que essa seja a melhor hora e podemos esperar um pouco, quem sabe cinco anos”, disse.

Ele acredita também que, se o modo de debater for diferente, as pessoas tendem a ser mais tolerantes. “Podemos fazer uma campanha para unir as religiões quando as lembranças estiverem menos frescas. E de modo civilizado para não ouvirmos que o ‘Islã é o mal’”, afirmou. “Seria melhor pra todos se pudéssemos achar um caminho mais fácil para nós, muçulmanos, vivermos aqui e não sermos perseguidos.”

Khan, de Detroit, observa que na maior parte de sua história os EUA têm sido muito plurais, afirmando que o problema é quando o medo evidencia o radicalismo de pequenos grupos, como o do pastor Jones, fazendo com que os ‘diferentes’ fiquem mais vulneráveis.

“É a tragédia da ironia. Assim como os muçulmanos extremistas não deveriam representar a comunidade muçulmana, a voz da intolerância não deveria representar toda uma nação”, concluiu Khan.

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