O plano de um pastor batista dos EUA de queimar exemplares do Alcorão, livro sagrado dos muçulmanos, para marcar o nono aniversário dos ataques terroristas do 11 de Setembro atraiu nesta quarta-feira críticas de várias organizações e países do mundo, pelo segundo dia consecutivo.
A tradicionalmente moderada instituição sunita egípcia Al-Azhar e o grupo islamita egípcio Irmandade Muçulmana afirmaram nesta quarta-feira que o projeto seria um duro golpe na imagem dos EUA.
Pastor Terry Jones em Gainesville, Flórida. Ele planeja queimar cópias do Alcorão para marcar o nono aniversário do 11 de Setembro de 2001 (30/08/2010)
O xeque Abdel el-Moati el-Bayumi, um dos principais diretores da Al-Azhar no Cairo, fez um apelo ao governo do presidente Barack Obama - que em junho de 2009 pronunciou na capital egípcia um importante discurso de conciliação com o mundo muçulmano - para que impeça a queima do Alcorão.
"Se o governo (americano) não conseguir impedir isso, seria a última manifestação de terrorismo religioso e arruinaria as relações entre os EUA e o mundo muçulmano", declarou. "Isso será uma oportunidade para o terrorismo. Vocês querem combater o terrorismo ou incentivá-lo?", indagou.
Um importante dirigente da Irmandade Muçulmana egípcia, Esam al-Erian, disse que a queima do livro sagrado do Islã seria "um ato de barbárie que lembra a Inquisição". Se a iniciativa, anunciada para o dia 11 de Setembro, for concretizada, "o ódio aos EUA no mundo muçulmano aumentará", afirmou.
Além das organizações egípcias, o secretário-geral da Liga Árabe, Amr Musa, qualificou de "fanático" o reverendo evangélico americano que pretende queimar os exemplares. "Há uma crescente maioria nos EUA contra esse fanático", disse Musa em referência a Terry Jones, pastor da igreja Dove World Outreach Center, criada em 1986 e localizada em Gainesville, na Flórida.
Advertência do Vaticano
Por sua vez, o Vaticano advertiu que o plano de Jones seria uma "grave ofensa contra um livro considerado sagrado por uma comunidade religiosa". O Conselho Pontifício do Vaticano para o Diálogo Interreligioso, o equivalente a um ministério, expressou "intensa preocupação com o projeto de um 'Koran Burning Day' (Dia de Queimar o Alcorão) no dia 11 de Setembro".
"Cada religião, com seus livros sagrados, seus locais de culto e símbolos, merece respeito e proteção", afirmou um comunicado do conselho. A União Europeia também condenou o projeto.
O chefe da Missão de Assistência das Nações Unidas no Afeganistão (Unama), Staffan de Mistura, qualificou nesta quarta-feira de "repugnante" o plano, afirmando que a ideia pode instigar a ira dos insurgentes afegãos. "Quero expressar nos mais duros termos nossa preocupação e indignação sobre o anúncio feito por um pequeno grupo religioso de queimar o Alcorão", manifestou Mistura em comunicado.
Segundo Mistura, o exercício da liberdade de expressão não deve ser confundido "com a intenção de ofender a religião e as crenças de milhões de pessoas". "Se essa ação repugnante acontecer, só instigaria os argumentos dos que estão contra a paz e a reconciliação no Afeganistão e poderia pôr em perigo os esforços de muitos afegãos e estrangeiros que tentam ajudar o país", acrescentou.
Na terça-feira, a Casa Branca e o chefe das tropas internacionais mobilizadas no Afeganistão, general David Petraeus, expressaram preocupação com a queima do Corão, caso que já desencadeou protestos nesta semana em Cabul.
Apesar das advertências e apelos, o pastor Jones confirmou na terça-feira que manterá seu plano de queimar o Alcorão, defendendo um dia internacional de queima do livro sagrado dos muçulmanos.
*Com EFE e AFP
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