O presidente eleito do Chile, o empresário Sebastián Piñera, da Coalición por el Cambio (Frente para a Mudança), usou o resultado das urnas no pleito de domingo para falar sobre a transferência de votos nas próximas eleições presidenciais do Brasil. Segundo Piñera, a necessidade de mudança expressada por uma sociedade é mais forte do que a popularidade de um presidente na hora do voto.

"Quero deixar claro que uma coisa é a popularidade de um presidente e outra coisa é a necessidade de mudança que pode experimentar um país, como ficou demonstrado aqui no caso do Chile", afirmou.

As declarações de Piñera foram feitas durante entrevista à imprensa estrangeira. Ele foi questionado, por um jornalista brasileiro, sobre a dificuldade de transferência de votos da presidente chilena, Michelle Bachelet, para seu candidato, Eduardo Frei, e a possibilidade de o mesmo ocorrer no Brasil.

"É verdade, a presidente Bachelet é muito popular e o presidente Lula também. Mas não há que confundir a popularidade de um presidente com a necessidade de mudança de um país", disse.

Segundo ele, no Chile ficou demonstrado que "não é incompatível" um presidente popular e, ao mesmo tempo, "uma tremenda demanda por mudanças" - que teria ficado claro no resultado deste domingo.

Piñera afirmou conhecer o "projeto de mudanças" do Brasil e disse saber que a oposição brasileira ainda não definiu seu candidato.

Apesar disso, ele disse que "dos dois candidatos, conheço particularmente a (José) Serra. Mas o Brasil deverá tomar seu próprio caminho".

Lula
Durante a coletiva, Piñera se definiu como de "centro-direita", a favor das investigações e combate aos crimes de direitos humanos. Ele afirmou, no entanto, que acredita que a discussão sobre "direita e esquerda" está ultrapassada.

Piñera citou o governo do presidente Luiz Inácio da Silva como um exemplo de gestão que poderia ser definido, pela trajetória do líder brasileiro, como de esquerda.

"Lula poderia ser considerado presidente de esquerda, mas definitivamente ele é parte da verdadeira democracia. Num governo democrático, como é o caso do Brasil, ocorre a integração com o mundo", disse.

O presidente eleito ainda apontou diferenças no estilo brasileiro de governar com outros países, como Argentina, Venezuela e Bolívia.

Mas afirmou que "respeita os caminhos de cada país" e que estas diferenças não significarão um obstáculo para o processo de integração.

'Coluna vertebral'
Na entrevista, Piñera afirmou que, em seu governo, a "coluna vertebral" do Chile será a busca da recuperação da capacidade de crescimento do país, assim como a maior geração de empregos, mais eficácia no combate à delinqüência e ao narcotráfico.

O presidente eleito disse que manterá as políticas implementadas pelo governo de Bachelet, da frente Concertación, como os projetos de inclusão social.

Apesar disso, ele afirmou que pretende trabalhar para reduzir a desigualdade social no Chile. Dados oficiais indicam que, nos vinte anos em que a Concertación ficou no poder, a pobreza caiu de cerca de 44% para 13%, mas a brecha entre ricos e pobres se ampliou.

O analista Hector Soto, do jornal La Tercera, e o embaixador do Brasil em Santiago, Mario Vilalva Chile lembraram que o Chile é líder no índice de desenvolvimento humano na América Latina.

Nestas duas décadas de Concertación, o país adotou uma política de livre comércio com 56 acordos com países e grupos de países.

Piñera disse que estes acordos serão mantidos porque, em sua visão, são positivos para o Chile. Porém, ele afirmou que é preciso "acelerar o passo" para "reduzir a pobreza" e "gerar empregos".

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