Petrodólares alimentam a reconstrução e a desconfiança em Angola

Todo dia milhões de petrodólares entram nos caixas do Estado angolano e desembocam principalmente na reconstrução do país, embora a imensa pobreza e a falta de transparência das contas públicas alimentem as suspeitas de corrupção.

AFP |

Angola, primeiro produtor de petróleo da África Subsaariana junto com a Nigéria, "produz cerca de dois milhões de barris por dia e, com o preço atual da commodity (mais de 110 dólares o barril), é evidente que o governo vem tendo rendas enormes", comentou Lopes Raul, economista em Luanda.

"Mas o governo não é transparente no que diz respeito à utilização deste dinheiro, quanto às rendas exatas derivadas do petróleo que sustentam a economia", disse o analista.

O Movimento Popular para a Liberação da Angola (MPLA) dirigiu durante 25 anos um país em guerra civil (1975-2002), um contexto nada propício à transparência. Entre 1997 e 2001, 1,7 bilhão de dólares desapareceram dos cofres públicos de Angola, segundo a associação britânica Global Witness.

Desde a restauração da paz em 2002, houve avanço: hoje o ministério das Finanças detalha o orçamento anual do Estado na internet, fixado em 2,5 bilhões de dólares para 2008. A renda fiscal está estimada em 1,89 bilhão de dólares, 77,2% dos quais procedentes do petróleo.

Para provar seus gastos, o ministério mostra fotografias dos grandes projetos de reconstrução do país, devastado pela guerra civil: entradas, pontes, hospitais e escolas.

"Fizemos muito por Angola", repetiu o presidente José Eduardo dos Santos, uma semana antes das primeiras eleições legislativas em tempos de paz no país. "Agora, em todas as cidades, temos água e eletricidade. As estradas que estavam destruídas voltaram a ser abertas. Há mais escolas, centros médicos e hospitais".

No entanto, Lopes Raul afirmou que, "embora o governo dê muita ênfase à reconstrução nacional, ainda estamos longe de atender às expectativas da sociedade".

"As zonas rurais estão abandonadas à sua sorte, os habitantes estão longe dos pontos de água e eletricidade, e a miséria é muito visível", acrescentou.

Apesar dos petrodólares e de ter a taxa de crescimento mais elevada da África, que segundo o Banco Mundial passará de 20% este ano, dois terços dos angolanos vivem abaixo do nível de pobreza.

Para Nicholas Shaxon, autor de um livro sobre os Estados ricos em petróleo da África, os hidrocarbonetos são inclusive uma "fatalidade" para os mais pobres, porque impulsionam os aumentos dos preços.

Luanda é uma das cidades mais caras do mundo. O aluguel de um apartamento simples chega a 1.500 dólares, uma garrafa de água mineral custa dois dólares e uma cama de segunda mão, 250 dólares.

Segundo Shaxon, embora hoje o Estado seja mais transparente com relação à renda, ainda há o problema dos gastos. "Nos projetos de reconstrução, o dinheiro desaparece e as pessoas aceitam subornos, o que é muito difícil de detectar", disse.

Segundo a Transparência Internacional, Angola faz parte dos países tidos como os mais corruptos do mundo, em 147º lugar numa lista de 179 nações.

Rafael Marques, um analista independente detido três vezes por suas críticas, é uma das poucas vozes no país que acusa abertamente o governo.

Para ele, sem dúvida nenhuma o dinheiro do petróleo "vai para o bolso do presidente, de sua família, e de um número reduzido de ministros, generais e membros do comitê político do MPLA".

Contatado diversas vezes, o ministério das Finanças não respondeu à AFP.

cme-chp/lm

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