Uma pesquisa realizada a pedido da BBC em 27 países e divulgada nesta segunda-feira apontou que existe uma grande insatisfação com o capitalismo de livre mercado, 20 anos após o episódio que marcou a derrocada de seu sistema rival, o comunismo. Em um universo de 29 mil entrevistados, apenas 11% disseram que o capitalismo funciona bem e que uma maior regulação por parte dos governos o tornaria muito menos eficiente.

Por outro lado, 23% opinaram que o sistema "está cheio de falhas e precisamos de um novo sistema econômico".

Os resultados foram compilados para coincidir com os 20 anos da queda do muro de Berlim, que dividia a cidade em duas metades, uma ocidental, capitalista, e outra oriental, comunista.

"Parece que a queda do muro de Berlim, em 1989, não foi a vitória arrasadora para o capitalismo de livre mercado que parecia à época", disse Doug Miller, presidente da Globescan, uma das empresas parceiras da iniciativa.

Após mais de uma década de experiências neoliberais, iniciadas a partir do chamado consenso de Washington, nos anos 1990, e sobretudo depois da crise econômica atual, atribuída em grande parte aos excessos do mercado, a pesquisa mostrou uma receptividade de cidadãos em diversos países a algum tipo de presença governamental da economia.

A maioria dos entrevistados (51%) opinou que o capitalismo de livre mercado "tem alguns problemas, mas esses problemas podem ser resolvidos através de reformas no sistema e mais regulação/ controle".

"As pessoas não querem abandonar o capitalismo, mas moderá-lo", disse Steven Kull, diretor do Programa sobre Atitudes em Políticas Internacionais (Pipa, na sigla em inglês), com sede em Washington, parceiro da pesquisa.

Para Kull, "há espaço para os governos atuarem na distribuição de riqueza e até controlando setores econômicos".

Nesse aspecto, o Brasil se destacou. Foi o país com a maior proporção de entrevistados que defendeu um papel mais ativo do governo "na regulação dos negócios do país" e o quinto com maior apoio à ideia de que o governo "controle diretamente as principais indústrias do país".

Satisfação com o sistema
Os entrevistados brasileiros - 835, em nove capitais - expressaram mais ceticismo em relação ao livre mercado que entrevistados de outros países.

Embora 43% tenham dito que os problemas do sistema podem ser resolvidos através de reformas, Kull considerou "impressionante" que 35% tenham expressado que "um novo sistema econômico" é preciso.

Foi o terceiro maior percentual dado a esta resposta, atrás apenas do verificado na França (43%) e no México (38%).

Entre os mexicanos, apenas 2% dos entrevistados consideraram que mais regulação tornaria o capitalismo menos eficiente, contra 8% dos brasileiros.

Na própria Rússia, comunista até 1991, a visão de que "precisamos de um novo sistema econômico" recebeu menos preferência (23%).

A opinião prevalente entre os russos é a de que o livre mercado tem "alguns problemas que podem ser resolvidos com mais regulação" (43%). Já 12% acham que mais intervenção "tornaria o sistema menos eficiente".

O país que mais apóia o livre mercado foram os Estados Unidos (25%). Ainda assim, mais da metade dos cerca de mil americanos entrevistados (53%) disseram que o sistema tem "alguns problemas" e precisa de mudanças. Outros 13% dos americanos advogaram um sistema diferente.

O apoio ao capitalismo também foi relativamente alto no Paquistão, onde 21% disseram que mais amarras o tornariam menos eficiente, e na República Tcheca, onde essa resposta recebeu 19% dos votos.

Governo na economia
A pesquisa não perguntou que sistema seria considerado pelos entrevistados como uma alternativa ao capitalismo de livre mercado.

Mas quis saber deles o que pensavam da atuação do governo na "distribuição de riquezas", na "regulação dos negócios" e no controle direto das "principais indústrias" de seu país.

No Chile, no México e no Brasil, em torno de 90% dos entrevistados responderam que o governo deveria ter um papel maior na distribuição de riquezas de um país, o maior apoio de uma região por este objetivo.

No Brasil e no Chile, houve grande apoio à ideia de que o governo deveria "regular mais os negócios de um país" (Brasil, 87%, Chile, 84%) e até ser "dono ou controlar diretamente as principais indústrias do país" (Chile, 72%, Brasil, 64%).

"A América Latina está mais à esquerda em relação a outras partes do mundo, e o Brasil se destaca nisto", disse Kull.

"Nos países europeus houve grande apoio a uma maior participação do governo na economia, mas quando se usa o termo 'controlar' o apoio cai. Isso não se aplica à América Latina, onde essa não é uma 'palavra proibida'", comparou.

Só na Rússia (77%) e na Ucrânia (75%) houve maior preferência a que o governo detenha ou controle as principais indústrias do país.

Um país que chamou a atenção dos pesquisadores foi a China, onde 58% crêem que o livre mercado "tem alguns problemas, que podem ser resolvidos com regulação".

Entre os chineses, 71% disseram que o governo deveria fazer mais para distribuir riqueza no país, mesmo percentual dos que defenderam uma maior regulação nos negócios. Outros 52% opinaram que o governo deveria ter mais papel no controle direto das principais indústrias do país.

Para Steven Kull, esta opinião se deve ao desejo dos chineses de ver o governo agir para contrabalançar os efeitos da abertura econômica que o país tem experimentado nas últimas décadas e, em especial, nos últimos dez anos.

"Na última década, as coisas se tornaram menos estáveis e menos previsíveis para os chineses, ainda que a economia esteja crescendo e eles estejam mais ricos", disse.

"Existe um problema em relação ao acesso à saúde e ao desemprego, e eles querem que o governo assuma os mesmos compromissos que assumiu no passado, de garantir o acesso dos cidadãos a serviços básicos."

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