Pervez Musharraf renuncia à presidência do Paquistão

O presidente do Paquistão, Pervez Musharraf, anunciou nesta segunda-feira em discurso à nação sua renúncia ao cargo, na véspera da abertura de um processo de destituição.

AFP |

No auge da impopularidade, o ex-membro dos comandos de elite que chegaram ao poder da única potência nuclear militar do mundo muçulmano em outubro de 1999, após um golpe de Estado, sem derramamento de sangue, finalmente cedeu às pressões de adversários políticos.

Sem dúvida, influenciou também em sua decisão o fraco apoio dado a ele nos últimos tempos pelo exército e, sobretudo, os Estados Unidos, até agora seu aliado chave na guerra contra o terrorismo islâmico. Eles o vinham condenando cada vez mais por não lutar com eficácia contra a presença da Al-Qaeda e dos talibãs nas zonas tribais do noroeste do país.

"Depois de analisar a situação e consultar conselheiros e aliados políticos, decidi renunciar", disse Musharraf com semblante grave.

"Deixo meu futuro nas mãos do povo", acrescentou, ao final de um discurso no qual defendeu seu balanço e acusou a coalizão governista, antiga oposição que saiu vitoriosa das legislativas de fevereiro, de fugir aos fundamentos da República Islâmica do Paquistão, com 160 milhões de habitantes.

Musharraf fez questão de reiterar sua inocência e assegurar que as acusações políticas contra ele não se sustentavam.

"Nem uma só acusação contra mim se sustenta", assegurou. "Não podem provar nenhuma acusação porque nunca fiz nada em meu proveito, sempre fiz tudo pelo Paquistão", declarou.

"Minha filosofia foi: primeiro o Paquistão", disse Musharraf no discurso.

"Infelizmente, alguns elementos com interesses ocultos levantaram falsas acusações contra mim", acrescentou.

"Dizem que durante os últimos nove anos nossos problemas econômicos e os cortes de energia elétrica foram causados por nossas políticas. É absolutamente falso e uma decepção para o país", declarou.

"Poderão ter êxito contra mim, mas não se deram conta de até que ponto poderá ser prejudicial para o país" essa vitória política, acrescentou, referindo-se a seus adversários.

Musharraf, um militar que chegou ao poder depois de um golpe de Estado em 1999, foi releeito de maneira polêmica em outubro de 2007. Pouco depois foi forçado a renunciar ao cargo de comandante do exército, numa tentativa de abrandar sua imagem autoritária.

Sua popularidade, no entanto, já havia iniciado uma queda drástica, afetada por sua tentativa de acabar com o poder do presidente da Suprema Corte e pela espiral de violência terrorista que sacudia o país.

Os ataques dos talibãs provocaram mais de mil mortos, incluindo a ex-primeira-ministra Benazir Bhutto em dezembro passado, que havia regressado do exílio para combater os partidários de Musharraf nas eleições legislativas.

Musharraf, reeleito então por cinco anos, impôs o estado de emergência em novembro, três meses antes das eleições legislativas, alegando a necessidade de frear a onda de atentados e de enfrentar uma crise com o Poder Judiciário.

No entanto, seus aliados sofreram uma estrepitosa derrota na votação.

A coalizão de partidos que venceu as eleições, liderada pelo Partido do Povo Paquistanês (PPP, da falecida Bhutto), conseguiu superar suas divisões e acertou em 7 de agosto que buscaria a destituição de Musharraf.

O filho de Benazir Bhuto, Bilawal Bhutto Zardari, de 19 anos e atual líder do PPP, aplaudiu nesta segunda-feira a demissão de Musharraf e afirmou que o próximo presidente do país será de seu partido.

"Depois do assassinato de minha mãe eu disse que a democracia seria a melhor vingança, e agora ficou demonstrado que eu tinha razão", declarou.

"O próximo presidente do Paquistão será, sem dúvida, alguém do Partido do Povo Paquistanês, mas ainda não sei quem", acrescentou falando à Tv paquistanesa.

Segundo algumas fontes oficiais, conselheiros de Musharrraf estavam em contato com a coalizão no poder através da mediação da Arábia Saudita, Estados Unidos e Grã-Bretanha, para permitir ao chefe de Estado abandonar o poder em troca de uma indenização.

Musharraf teria outras três opções, incluindo a dissolução do Parlamento e a declaração do estado de emergência, mas para isso precisava do apoio do exército, que, segundo observadores, já não estava disposto a se comprometer com seu ex-chefe.

As potências ocidentais querem que o Paquistão resolva a crise o quanto antes possível para se concentrar na luta contra as milícias islamitas talibãs e a rede Al-Qaeda nas regiões fronteiriças com o Afeganistão, onde 500 pessoas morreram na semana passada.

O governo afegão, por sua parte, afirmou esperar que o anúncio da demissão de Musharraf contribua para reforçar a democracia e a estabilidade no Paquistão, segundo o porta-voz do ministério das Relações Exteriores.

A demissão de Musharraf acontece num momento de grande tensão entre os dois países. Cabul acusou os serviços secretos paquistaneses de envolvimento em uma série de violentos atentados, em particular o que tinha por objetivo a embaixada da Índia na capital afegã em 7 de julho, que deixou mais de 60 mortos.

As autoridades afegãs acusam Islamabad de não realizar esforços suficientes para impedir que os talibãs afegãos e combatentes da Al-Qaeda entrem no Afeganistão.

As zonas tribais paquistanesas abrigam vários grupos fundamentalistas armados e alguns deles começaram negociações com o novo governo de Islamabad, mas, ao mesmo tempo, prometeram seguir com a Jihad, a guerra santa, no Afeganistão, o que irrita o governo de Cabul.

O Paquistão, por sua vez, acha que Cabul e as forças internacionais são incapazes de vencer os talibãs, o que fez os conflitos se estenderem para o território paquistanês.

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