Por Daniela Desantis ASSUNÇÃO (Reuters) - Ele derrotou nas urnas o partido da América do Sul que mais tempo havia ficado no poder, recebeu uma licença histórica do papa e foi protagonista de uma inédita passagem pacífica da faixa presidencial em seu país.

Com apenas três anos de experiência no mundo da política, Fernando Lugo realizou todas essas façanhas ao assumir a Presidência do Paraguai, em meio a uma festa popular e a um clima de expectativa que se espalhou por todo o continente.

'Quero anunciar que me nego a viver em um país no qual alguns não dormem porque têm medo e outros não dormem porque têm fome', disse Lugo, pouco depois de prestar juramento diante de centenas de delegações estrangeiras e nove presidentes. O novo líder paraguaio usava uma camisa branca típica de seu país.

A cerimônia de tomada de posse foi acompanhada por milhares de paraguaios que agitavam bandeiras do país e gritavam o nome do ex-bispo nas ruas do centro histórico de Assunção, em meio a uma ensolarada manhã.

A caminhada de Lugo rumo ao Palácio de los López --sede do governo-- iniciou-se quando o então bispo católico resolveu abandonar sua diocese após declarar-se impotente para responder às necessidades de uma população cada vez mais pobre e desesperançada.

Meses mais tarde, ao ser aclamado em uma passeata de protesto contra o então mandatário do país, o nome dele começou a ser aventado para concorrer à Presidência. Foi o início de uma caminhada meteórica rumo ao poder.

Antes disso, no entanto, Lugo precisou desvencilhar-se do Vaticano, que ficou irritado com a decisão dele de abandonar a batina. A Santa Sé suspendeu-o de suas funções por tempo indeterminado e pediu que se submetesse a um processo de recapacitação.

Lugo, 57, ignorou os apelos e deu continuidade a seus planos, transformando-se no líder de uma coalizão da qual participam várias legendas e movimentos sociais, uma mistura de liberais, socialistas, organizações campesinas, sindicais e estudantis.

No dia 20 de abril, o ex-bispo tornou-se presidente eleito, rompendo a hegemonia de mais de 60 anos do Partido Colorado (conservador) ao vencer o pleito com cerca de 40 por cento dos votos.

'A vitória de Lugo significou um grito contra a continuidade da ineficácia e da corrupção desgovernada', escreveu a analista Estela Ruiz Diaz em uma coluna publicada no jornal Ultima Hora.

'Significou um pedido de socorro contra o sectarismo de um partido que comandou o país privilegiando um grupo, o qual se enriqueceu às custas do povo', acrescentou.

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