Pele vira neurônio em novo tratamento com célula-tronco

Por Maggie Fox WASHINGTON (Reuters) - Células cutâneas comuns retiradas de pacientes com uma doença incurável e fatal foram transformadas em células nervosas, no primeiro passo de um possível tratamento para essas pessoas, disseram cientistas na quinta-feira.

Reuters |

Em artigo na revista Science, pesquisadores dos EUA relataram como transformaram as células de duas irmãs de 82 e 89 anos, vítimas da esclerose lateral amiotrófica (mal de Lou Gehrig), em neurônios motores -- as células que se deterioraram nessa enfermidade.

Não há um uso médico imediato para a descoberta, mas os cientistas disseram que, tendo à disposição um estoque infinito de neurônios a serem devastados, eles poderão estudar em laboratório o desenvolvimento da doença.

'Podemos gerar centenas de milhões de neurônios motores que são geneticamente idênticos aos neurônios do próprio paciente', disse Chris Henderson, da Universidade Columbia (Nova York), que participou do estudo.

'Isso será de imensa ajuda para tentarmos descobrir mecanismos por trás da doença e pesquisar drogas que possam prolongar a vida.'

O mal de Lou Gehrig, assim batizado em alusão a um famoso jogador de beisebol vitimado pela doença em 1941, paralisa gradualmente os pacientes, até matá-los. Há cerca de 120 mil novos casos diagnosticados por ano no mundo, segundo a Aliança Internacional da Esclerose Lateral Amiotrófica.

É difícil estudar as células afetadas porque elas se encontram na coluna vertebral dos pacientes, e não há como retirá-las.

'É a nossa falta de compreensão sobre o processo da doença que nos impede de desenvolver [tratamentos] mais eficazes', disse Henderson a jornalistas por telefone.

Ele e seu colega Kevin Eggan, da Faculdade de Medicina Harvard (Boston), pretendem agora cultivar esses neurônios motores em laboratório e recriar a doença, para então tentar tratá-la com várias drogas.

As duas pacientes possuem uma forma moderada da esclerose, causada por uma única mutação genética, contida em todas as células do seu organismo.

A experiência ajuda a realizar uma das promessas das polêmicas pesquisas com células-tronco embrionárias, segundo Eggan. Ou seja, a esperança de que células comuns pudessem permitir estudos e tratamentos individualizados.

No ano passado, várias equipes de pesquisadores anunciaram métodos para que células cutâneas agissem como células -- tronco embrionárias -- que são as células iniciais dos seres, capazes de se transformar em qualquer tipo de célula ou tecido.

Segundo Eggan, a descoberta não elimina a necessidade de continuar pesquisando com embriões humanos, habitualmente descartados em clínicas de fertilização, e realizando técnicas de clonagem -- o que desperta acusações éticas de grupos religiosos.

Por um lado, eles usaram vírus para transportar quatro genes que transformaram as células da pele em neurônios. Esses vírus se integram às células, tornando seu uso em pessoas perigoso demais, disse Eggan.

Por outro lado, o defeito genético que causa a esclerose lateral amiotrófica tem de ser corrigido antes que as células possam vir a ser usadas em eventuais tratamentos, segundo os pesquisadores.

Eggan lembrou que foi a pesquisa com embriões que lhes permitiu visualizar os passos a serem dados na sua experiência.

E que, se este método fracassar, todos os cientistas terão de voltar às pesquisas com células-tronco embrionárias.

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