Pelas Malvinas, Argentina abre 'guerra comercial' com Reino Unido

Governo pede que empresários argentinos não importem produtos britânicos; Reino Unido convoca diplomata argentino para dar esclarecimentos

iG São Paulo |

Em meio à reivindicação para que sejam abertas negociações sobre a soberania das Ilhas Malvinas , a Argentina anunciou uma medida que visa a dificultar a compra de produtos britânicos, abrindo caminho para uma guerra comercial com o Reino Unido.

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Na noite da terça-feira, o governo argentino pediu aos empresários do país que não importem produtos britânicos, substituindo os itens desse país por similares de outras procedências, de acordo com a mídia argentina.

Por telefone, a ministra de Indústria da Argentina, Débora Giorgi, teria feito o pedido a executivos e empresários das 20 principais empresas nacionais e multinacionais instaladas no país que importam produtos da Grã Bretanha.

Entre os itens que seriam afetados pela medida, estão produtos usados no setor agropecuário, como tratores e inseticidas especiais. "É fundamental que a Argentina decida quem são seus sócios comerciais e estratégicos, e, nesse sentido, o governo também quer transmitir um sinal para os que ainda usam o colonialismo como forma de aceder aos recursos naturais", afirmaram assessores do ministério, de acordo com os jornais Clarín e El Cronista.

Em reação à medida, o Ministério das Relações Exteriores britânico convocou nesta quarta-feira o encarregado de negócios argentino, Osvaldo Marsico, para exigir uma explicação sobre a medida. Horas antes, um porta-voz do primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, tinha descrito como "contraproducente" a proposta de restrição às exportações britânicas.

O porta-voz afirmou que "é muito triste que a Argentina continue com sua política de confronto em vez de cooperação", e opinou que essa postura é "uma má interpretação da determinação britânica sobre o assunto". "O Reino Unido", disse, "é também um investidor na Argentina, e importamos produtos da Argentina. Não joga a favor dos interesses econômicos argentinos estabelecer barreiras desse tipo".

'Colonialismo'

A palavra "colonialismo" tem sido repetida nos discursos da presidenta Cristina Kirchner quando se refere à Grã-Bretanha e à questão das Malvinas (Falklands, para os britânicos). Neste ano, que marca os 30 anos da guerra entre os dois países pela soberania das ilhas, as autoridades argentinas têm intensificado suas criticas aos britânicos.

A guerra começou em 2 de abril de 1982, com a chegada de tropas argentinas no arquipélago do Atlântico Sul. No entanto, essa é a primeira vez que a disputa é levada ao terreno comercial. Para o economista Marcelo Elizondo, ex-presidente da Fundação Exportar, ligada ao governo, "não é fácil" substituir as importações britânicas.

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"Não é fácil substituir essas importações porque elas são de alta qualidade, e não se encontram em qualquer lugar. E esse tipo de medida contra um mercado costuma atrair retaliações", afirmou o economista, que trabalha na consultoria DNI (Desenvolvimento de Negócios Internacionais).

Ele afirma que, na lista de empresas instaladas na Argentina que exportam para o mercado britânico, estão multinacionais como Cargill e Aceitera General Deheza, além de vinícolas nacionais como Norton e Santiago Grafigna.

Atualmente, a Argentina tem superávit comercial com o Reino Unido, embora a relação tenha registrado uma forte queda no ano passado, em comparação com 2010. De acordo com a consultoria Abeceb, de Buenos Aires, as importações britânicas representam apenas 0,9% de toda a pauta de importados argentinos.

A iniciativa argentina ocorre em um momento no qual o país já vinha implementando medidas para reduzir a entrada de importados e a saída de dólares. Nos últimos dias, os governos do Paraguai e do Uruguai somaram-se às criticas que vinham sendo feitas por setores da economia brasileira ao aumento das exigências impostas sobre as exportações para a Argentina.

Restrições a importados

A escalada de tensões diplomáticas entre Argentina e Reino Unido passou para o setor comercial depois que dois cruzeiros, que tinham saído das Malvinas, foram impedidos de ancorar na Província da Terra do Fogo , no extremo sul do território argentino.

A decisão desencadeou criticas do setor de turismo e empresarial na Terra do Fogo. "Essa é uma forma barata de praticar a soberania", disse o presidente da Câmara de Turismo de Ushuaia, na Terra do Fogo, Marcelo Leitti.

O Ministério de Relações Exteriores britânico afirmou que também abordaria essa questão com o encarregado de negócios argentino. "Dadas nossas preocupações com os incidentes recentes com navios de cruzeiro em Ushuaia, convocamos o diplomata argentino esta tarde para uma explicação", disse a porta-voz.

O governo do Reino Unido também tratará essa situação com outros países da América Latina, acrescentou a fonte. A tensão foi agravada no ano passado depois que os países do Mercosul (Argentina, Uruguai, Paraguai e Brasil) acordaram em reunião impedir o ingresso a seus portos de navios com bandeira das ilhas do Atlântico Sul.

*Com BBC, EFE e AFP

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