Pedido de reconhecimento de Estado palestino à ONU é 'pouco realista', diz Obama

O presidente diz que um acordo de paz na região depende de uma posição unificicada das facções palestinas em relação à forma de negociar com Israel

BBC Brasil |

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EFE
Obama defende Estado palestino nas fronteiras de 1967
O presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, disse em entrevista exclusiva à BBC que qualquer tentativa de autoridades palestinas de pedir à ONU o reconhecimento formal de um Estado será apenas "um esforço simbólico" e "pouco realista".

A entrevista foi concedida na quinta-feira ao jornalista da BBC Andrew Marr, horas depois de um discurso no Departamento de Estado americano, em Washington, no qual Obama delineou a política de seu país em relação ao Oriente Médio.

"Eles (os palestinos) têm que tomar uma decisão, em primeiro lugar, sobre qual é a posição oficial de uma autoridade palestina unificada sobre como lidar com Israel. Porque se eles não conseguirem passar dessa barreira, será muito difícil ter uma negociação. Também acredito que a noção de que você pode resolver este problema nas Nações Unidas é simplesmente pouco realista", afirmou o presidente americano, que acrescentou:

"Seja lá o que acontecer na ONU, é preciso falar com os israelenses. Não se pode passar por cima dos israelenses. Quaisquer esforços que eles façam na ONU serão simbólicos", disse Obama.

Durante a entrevista, Obama falou ainda sobre o assassinato do líder da Al-Qaeda Osama bin Laden, as relações com o Paquistão, sobre o estado da economia americana e sobre suas perspectivas para as eleições presidenciais americanas de 2012.

Fronteiras

Obama repetiu na entrevista o que afirmou no discurso sobre o Oriente Médio, dizendo que as chamadas fronteiras de 1967 devem ser a base da negociação para o estabelecimento de um Estado palestino.

As fronteiras de 1967 referem-se ao traçado existente antes da Guerra dos Seis Dias, na qual Israel ocupou a Cisjordânia e Jerusalém Oriental, que pertenciam à Jordânia, além da Faixa de Gaza e da Península do Sinai (sob controle do Egito) e das Colinas de Golã (da Síria).

"A base para negociações envolverá olhar para as fronteiras de 1967, reconhecer que as condições mudaram e que será necessário trocas para acomodar os interesses de ambos os lados", disse Obama à BBC.

Obama disse ainda que Israel "não avançaria" nas negociações a não ser que se sentisse seguro contra ataques vindos de Gaza e do Hezbollah, no Líbano. Ele admitiu ainda que o futuro status de Jerusalém e dos refugiados palestinos teriam que ser discutidos em um estágio futuro.

"Nosso argumento é: vamos começar a conversa sobre território e segurança", afirmou ele.

O primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu, rejeitou a visão de Obama de um Estado palestino baseado nas fronteiras anteriores à Guerra dos Seis Dias, em 1967, afirmando que isso deixaria assentamentos judaicos fora de Israel. Estima-se que cerca de 300 mil colonos israelenses vivam na Cisjordânia - que está fora das fronteiras israelenses pré-1967.

Revoltas árabes

Ao comentar a onda de revoltas populares em países árabes, Obama disse que decidiu fazer o discurso de quinta-feira em parte para demonstrar a populações da região que os EUA "estão do seu lado". Ele ressaltou que, em uma fase pós-revolta, é preciso também criar instituições na região que respeitem os direitos das minorias - como garantir a realização de eleições justas e o respeito à Constituição.

Ao comentar a operação de forças especiais americanas que culminou com o assassinato de Osama bin Laden no Paquistão, no começo de maio, Obama disse que "sentiu de modo bem pessoal" a morte do líder da Al-Qaeda.

"Se você tivesse se encontrado com familiares que perderam seus entes queridos no 11 de Setembro, se você pensar no trauma inacreditável que foi para todo país, o sacrifício que tem sido feito pelos militares, não apenas dos Estados Unidos, mas também da Grã-Bretanha, e de outros países aliados no Afeganistão... Foi um momento especial. E isso podia ser visto na reação do povo aqui nos Estados Unidos. E certamente, é algo que senti de modo bem pessoal", afirmou o presidente, acrescentando que os 40 minutos da operação "foram os mais longos que vivi durante meu mandato na Presidência".

Perguntado se havia alguma coisa que Bin Laden teria que ter feito para ser capturado com vida, Obama respondeu apenas que a operação na cidade de Abbottabad era extremamente difícil e que a equipe recebeu instruções para manter os "danos colaterais no nível mínimo possível". O presidente disse ainda ter ficado "impressionado com o trabalho extraordinário" que o grupamento responsável pela operação fez.

Obama afirmou ainda não acreditar que Bin Laden possa ter permanecido no Paquistão por cinco ou seis anos sem algum "tipo de apoio externo" ao complexo de casas onde ele vivia com a família, e que isso está sendo investigado.

"Você sabe, obviamente, acho que os paquistaneses estão preocupados com o que aconteceu. Tanto com o fato de que Bin Laden estava lá sem que ninguém soubesse. Ou com o fato de que alguns poderiam saber. E eu acho que cabe a eles investigar isso profundamente e levar isso muito a sério, e estamos em contato com eles a respeito disso, sobre como podemos ir adiante", afirmou.

Obama lembrou, entretanto, o histórico de cooperação do Paquistão com os EUA na chamada "guerra ao terror" americana, afirmando:

"Matamos mais terroristas em solo paquistanês do que em qualquer outro lugar, e isso não poderia ter sido feito sem a cooperação deles. Mas há mais trabalho a ser feito. E minha expectativa é de que ao longo dos próximos meses isso possa se tornar um ponto de mudança, a partir do qual possamos começar a ver uma relação de mais cooperação".

Ao ser perguntado se os EUA realizariam operação semelhante caso outro alto líder da Al-Qaeda seja localizado no Paquistão ou em outro país, Obama respondeu:

"Eu sempre fui claro com os paquistaneses. Nosso dever é manter a segurança dos EUA. Temos muito respeito à soberania do Paquistão. Mas não podemos permitir que alguém que esteja planejando ativamente matar nosso povo, ou cidadãos de nossos aliados, não podemos permitir que esse tipo de coisa aconteça sem que tomemos alguma atitude".

Sobre o Afeganistão, o presidente americano afirmou que não descarta negociações com o grupo extremista Talebã, se a organização rompesse seus laços com a Al-Qaeda, renunciasse à violência e respeitasse a Constituição do país. Obama confirmou que há aproximação com comandantes do Talebã que disseram estar dispostos a abrir mão das armas e se envolver no processo político do país.

Obama disse ainda que apesar de seu governo estar preocupado com a segurança dos EUA e de a operação que matou Bin Laden ter sido considerada um sucesso, sua principal preocupação é a recuperação da economia americana e a redução do desemprego e afirmou que essa, ao lado da implementação de um novo sistema de saúde nos EUA, será a principal bandeira de sua campanha à reeleição.

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