Pé na tábua e fé em... Quem?

Ônibus vermelhão, de dois andares, tal como deve ser, passou por mim, velho homem de metrôs, e me pôs a pensar. Ora, algumas pessoas, talvez porque discursem a sós nas ruas do centro, anunciando o fim do mundo ou a última palavra em descascador de batatas, me levam a dar asas ao pensamento.

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Bobeou, e lá estou eu pensando.

Nada de importante, original ou profundo. Simplesmente pensando. Dando tratos à bola, como se dizia na pelada da rua em que cresci. Uma coisa leva a outra e, por esse processo meio mixuruco da mente humana, eu que comecei pensando em fim do mundo (que, por sinal, acredito estar mesmo muito próximo) logo estou me lembrando do começo de meu mundo. 31 anos seguidos de Londres - ou qualquer estrangeiro - botam a gente nesse esquema.

Lembro então de velhos amigos, cinemas que acabaram, professores com que eu antipatizava, o dia em que a polícia prendeu um ladrão no prédio, meu primeiro cachorro bassê, a namorada que me deu um tapa no cinema, levantou e foi embora só porque eu fiz um rumor qualquer no escuro quando Ava Gardner se afastou da câmera lentamente e de costas para o arco adversário.

Lembro, enfim, desordenadamente, conforme o figurino, de coisas desimportantes, todas ou pela metade ou em simples flashes. Feito nos filmes que eu não parava de assistir. Era um por dia, às vezes dois, em geral às segundas, quando mudavam os programas.

Tudo porque, num país que não o meu, um estranho, mais pra lá que pra cá, prega o fim dos tempos. Quem dera. Raciocino: se eu tenho que me mandar, se está chegando a horinha, que vá o maior número de pessoas comigo. O mundo inteiro, de preferência. A humanidade. Fim da história. E da História.

Aí está. Sou de me amarrar firme num pensamento deprimente. Pensar besteira é com este criado que vos fala.

Tudo isso porque eu comecei dizendo que um ônibus me fez pensar. Que era seu objetivo. Vamos me deixar de lado - adeus, gente boa - e nos ater aos fatos.

Passaram a circular no Reino Unido, nesta primeira semana de janeiro, 800 ônibus, da família tradicional (vermelhão, dois andares), com um vasto cartaz pregado no lado de fora para todo mundo ver. Trata-se de uma iniciativa da Campanha Ateísta em Ônibus.

O cartaz promove não um novo sabonete, que os ateus não têm muito tempo para essas leviandades, mas sim a inexistência de uma entidade superior a que a maior parte das pessoas em sua ignorância (no caso, especulo e aspeio) costuma chamar de "Deus". Diz assim o referido cartaz em letras proverbialmente garrafais: "Provavelmente não há Deus, Agora pare de se preocupar e goze a vida."

Mais uma vez, serviu de comparsa na história a internet. Tudo começou com a intenção dos ativistas ateus de levantar qualquer coisa por volta dos 9 mil dólares afim de comprar um cartaz em ônibus só de Londres. A coisa se informatizou, como tanta coqueluche cibernética (que cada dia as há mais), e acabou atingindo um total aí por volta dos 200 mil dólares. Assim pois, a ilha toda espalha a mensagem dos ateus.

Um dos líderes da campanha, o professor Richard Dawkins, autor do best-seller A Ilusão de Deus, liderou, de certa forma, a campanha, emprestando não só seu valioso nome como se comprometendo a equiparar toda e qualquer contribuição. Não dá para dizer que o professor Dawkins mate a cobra e mostre o pau. Isso me parece beirar perigosamente a blasfêmia, embora eu me considere... O que eu me considero, ou no que e como creio, não vem ao caso. Sou um mero e reles relator de alguns fatos que, vez por outro, me levam a pensar.

Por falar em Deus e pensar, agora me lembrei. O filme em que Ava Gardner rebolava todo aquele seu garbo chamava-se Pandora (em inglês Pandora and the Flying Dutchman). Direção do injustamente esquecido Albert Lewin. Danado de bom. Não percam se levarem na TV ou encontrarem em DVD. Acredite no que quiser, mas principalmente na Ava Gardner. E aí então goze uma das coisas boas da vida.

Por Ivan Lessa

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