Pastor dos EUA impõe condição para cancelar queima do Alcorão

Jones condiciona suspensão de plano a encontro com idealizador de mesquita em Nova York; no Afeganistão, 11 se ferem em protestos

iG São Paulo |

Enquanto milhares de afegãos protestavam no Afeganistão contra o plano de uma igreja da Flórida de queimar 200 exemplares do Alcorão para marcar os ataques do 11 de Setembro, o pastor da igreja disse que não levaria adiante seu plano se pudesse se encontrar no sábado com os responsáveis pelo projeto de construção de um centro islâmico com uma mesquita em Nova York.

Falando ao programa Today, da NBC, o pastor Terry Jones disse que não queimará o livro sagrado dos muçulmanos se encontrar o imã Feisal Abdul Rauf, idealizador da mesquita a duas quadras do Marco Zero - onde ficavam as Torres Gêmeas atacadas em Nova York em 2001. Não ficou claro se Jones suspenderá indefinidamente o evento ou se isso se refere apenas ao sábado.

O Imam Muhammad Musri, presidente da Sociedade Islâmica da Flórida Central, disse ao programa The Early Show da CBS, que ele e Jones se encontrarão com Rauf em Nova York. Previamente, Jones e Musri discordaram sobre os termos de um suposto acordo para convencer o pastor a cancelar a queima do Alcorão.

Na quinta-feira, em meio a uma intensa pressão internacional e após receber uma ligação do chefe do Pentágono, Robert Gates, e uma visita do FBI (polícia federal americana), o pastor disse em Gainesville que cancelaria o evento após ter negociado com Musri que a localização da mesquita seria modificada. Mas o imã na Flórida desmentiu a informação, afirmando que deixou claro a Jones que ele apenas poderia marcar um encontro com os idealizadores do projeto em Nova York. O imã em Nova York, por sua vez, disse não ter conversado nem com Jones ou Musri.

Depois da negativa do presidente da Sociedade Islâmica da Flórida Central, Jones indicou que poderia levar adiante o plano , apesar de previamente ter anunciado que cancelaria o evento. "Estamos chocados. Ele claramente mentiu para nós."

Para os líderes políticos dos EUA e muçulmanos ao redor do mundo, as idas e vindas de Jones alimentam raiva e frustração. O presidente do Afeganistão, Hamid Karzai, disse que, se o plano de Jones for levado adiante, será "uma afronta " e um insulto a todos os muçulmanos.

No país asiático, confrontos entre manifestantes e as forças de segurança deixaram pelo menos 11 feridos nesta sexta-feira durante protestos contra o plano do pastor.

Milhares saíram às ruas de Faizabad, capital da Província de Badakhshan, no nordeste do país, após o fim das rezas nas mesquitas pela festividade do Eid ul-Fitr, que marca o fim do mês de jejum do Ramadã. Os manifestantes investiram contra a base da equipe provincial de reconstrução que a Força Internacional de Assistência à Segurança (Isaf) da Otan tem na cidade.

Nos confrontos que se seguiram, quatro manifestantes e cinco policiais ficaram feridos. Segundo a agência EFE, uma pessoa teria morrido, mas a informação ainda não foi confirmada. Na Província de Farah, no oeste do país, duas pessoas ficaram feridas em outro protesto. Por causa dos planos do pastor, vem ocorrendo protestos em todo o mundo desde o início da semana.

Condenação internacional

Os planos do pastor, que havia batizado o evento de sábado de "Dia Internacional de Queima do Alcorão", provocaram reações de líderes políticos e religiosos dentro e fora dos Estados Unidos.

Na quinta-feira, o presidente americano, Barack Obama, afirmou em entrevista à rede ABC que a iniciativa de Jones poderia estimular atos extremistas contra os EUA e ajudar a rede terrorista Al-Qaeda a recrutar militantes .

"Pode aumentar o recrutamento de indivíduos dispostos a se explodir em cidades americanas e europeias. "Podemos ter graves episódios de violência no Paquistão e no Afeganistão", disse, afirmando que o plano de Jones é contrário aos valores americanos e às noções de tolerância e liberdade religiosa sobre as quais o país foi construído.

Horas antes de Jones anunciar que suspenderia a queima do Alcorão, o Departamento de Estado americano fez um alerta aos cidadãos do país no exterior para a possibilidade de ações anti-EUA em diversas partes do mundo, caso a queima ocorresse no dia 11 de setembro. "Manifestações, algumas violentas, já aconteceram em diversos países, incluindo Afeganistão e Indonésia", afirmou o alerta.

Um dia antes, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton , já havia chamado o plano do pastor de "vergonhoso" e dito que Jones não representa os americanos ou o governo americano.

O comandante das forças da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) no Afeganistão, general David Petraeus, também já havia afirmado que o ato poderia colocar em risco a vida de soldados americanos no país.

Centro islâmico

Os planos de construção do centro cultural islâmico Cordoba House próximo ao local dos ataques de 11 de setembro também tem provocado polêmica nos Estados Unidos. Uma pesquisa divulgada na quarta-feira pela ABC News e pelo jornal The Washington Post revelou que dois terços dos entrevistados são contra a construção no local. A mesma pesquisa indica que 49% dos americanos afirmam ter opiniões desfavoráveis em relação ao Islã, o percentual mais alto desde outubro de 2001.

Jones proferiu suas declarações nesta quinta-feira ao lado de um representante da Fundação Islâmica do Centro da Flórida, Muhammad Musri. Musri disse que vai acompanhar Jones a Nova York para discutir a mudança de local do centro cultural. "Estamos comprometidos em esclarecer a situação aqui e lá", afirmou Musri.

*Com AP, EFE e BBC

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