Parlamento russo pede o reconhecimento de províncias separatistas da Geórgia

O Parlamento russo se pronunciou nesta segunda-feira a favor de um reconhecimento das duas repúblicas separatistas pró-russas da Geórgia, enquanto Moscou está sob pressão dos ocidentais para retirar de vez suas tropas do território georgiano.

AFP |

O Conselho da Federação (câmara alta) e a Duma (câmara baixa) votaram por unanimidade uma declaração pedindo ao presidente russo, Dmitri Medvedev, que reconheça a independência da Abkházia e da Ossétia do Sul.

A decisão agora será do executivo russo, que tem uma série de opções, do reconhecimento à anexação pura e simples destes dois territórios, o que impediria a Geórgia de entrar para a Otan, segundo especialistas.

"A Rússia respeitou durante mais de 15 anos a integridade territorial da Geórgia", declarou o presidente do Conselho da Federação, Sergueï Mironov, na abertura da sessão.

"Hoje, após a agressão da Geórgia contra a Ossétia do Sul, as relações não serão nunca mais as mesmas", acrescentou, chamando de "genocídio" a ofensiva das forças georgianas nesta república separatista em 7 de agosto.

"Nem a Abkházia, nem a Ossétia do Sul viverão no mesmo Estado que a Geórgia", disse o presidente abkházio Sergueï Bagapch.

O presidente da Ossétia do Sul, Eduard Kokoïti, declarou que Tskhinvali, a capital da província, se tornou o "Stalingrado do Cáucaso" numa alusão à batalha de Stalingrado em 1943.

Seis meses após a proclamação da independência de Kosovo, reconhecida pelo ocidente, mas muito criticada por Moscou, que advertiu na ocasião contra um "efeito dominó", o precedente da província sérvia está bem vivo na memória nesta segunda-feira.

"A Abkházia e a Ossétia do Sul têm mais razão do que Kosovo para ter sua independência", afirmou o presidente da comissão dos Assuntos Estrangeiros da Duma, Konstantin Kossatchev.

Sergueï Markov, cientista político e deputado pró-Kremilim, deu a entender que o reconhecimento destas duas regiões separatistas "não é a única solução para Moscou garantir a segurança da população destas duas repúblicas".

"Se os instrumentos existentes são suficientes, então continuaremos o processo de negociações e, se não são suficientes, então teremos que criar outros instrumentos, como o reconhecimento da independência, que permitiria às forças russas ficarem numa base legal nestes territórios", explicou.

O presidente georgiano, Mikhail Saakachvili, numa entrevista ao jornal francês Libération, denunciou o eventual reconhecimento dos dois territórios como uma "tentativa de mudar as fronteiras da Europa pela força que terá resultados desastrosos".

Berlim e Roma pediram ao governo russo que tenha prudência.

A Alemanha espera do presidente e do governo russos que "eles não realizem o voto no Parlamento". "A soberania e a integridade territorial da Geórgia não devem ser questionadas", declarou o porta-voz adjunto, Thomas Steg.

O chefe da diplomacia italiana Franco Frattini sugeriu à Rússia que seja "particularmente prudente", considerando a delicadeza desta situação atual na região.

Na prática, Tbilisi acusou os separatistas da Ossétia do Sul de terem reforçado sua presença em Akhalgori, um centro georgiano tomado pelos ossetas e os russos em 17 de agosto.

"Os rebeldes ossetas enviaram 16 veículos blindados a Akhalgori e estão aterrorizando a população etnicamente georgiana", afirmou o porta-voz do ministério georgiano do Interior, Chota Outiachvili.

No resto do país, "nada mudou", acrescentou, numa alusão às posições avançadas das forças russas, principalmente em torno da cidade portuária de Poti.

Enquanto os russos insistem em suas posições, os europeus pedem a adoção de um dispositivo internacional na Geórgia sob controle da OSCE (Organização para a Segurança e a Cooperação da Europa).

A Cúpula européia extraordinária convocada pela França para 1º de setembro deve "estudar a retirada russa", declaroun esta segunda-feira o chefe da diplomacia francesa, Bernard Kouchner, destacando que será necessário acertas politicamente as coisas.

Segundo ele, é preciso enviar observadores por intermédio da OSCE e também observadores da União Européia para analisar os movimentos das tropas russas.

neo-bur/lm

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