Parlamento alemão inicia investigação sobre bombardeio no Afeganistão

Berlim, 16 dez (EFE).- O Parlamento alemão investiga, a partir de hoje, as circunstâncias que cercaram o bombardeio nos arredores da cidade afegã de Kunduz, em setembro, no qual ao menos 142 pessoas morreram, e que forçou a saída de altos cargos de Defesa da Alemanha.

EFE |

Durante os próximos meses, a comissão parlamentar de Defesa - que passou a assumir a tarefa de uma comissão de investigação - tentará esclarecer se o Governo ocultou informações e quais foram os erros militares cometidos.

A investigação abrangerá tanto os problemas de comunicação do Governo anterior - a grande coalizão entre social-democratas e democratas-cristãos durante a época do bombardeio - quanto os do atual - formado por democratas-cristãos e liberais.

A ocultação de informação já custou o cargo do ex-ministro da Defesa alemão, Franz Josef Jung, que assumiu a pasta de Trabalho no atual Governo; do chefe do Estado-Maior, Wolfgang Schneiderhan; e do secretário de Estado de Defesa, Peter Wichert.

Os dois últimos foram destituídos pelo novo ministro da Defesa da Alemanha, Karl-Theodor zu Guttenberg, que reprovou os dois por terem escondido informações sobre o ataque, o que o levou a qualificá-lo, a princípio, de certo.

A investigação se refere ao bombardeio na noite de 3 para 4 de setembro, de dois caminhões-pipa sequestrados por talibãs que ficaram presos em um banco de areia do rio Kunduz, nos arredores da base alemã.

A princípio, os responsáveis militares e o Governo afirmaram que todas as vítimas eram insurgentes e que tinham previsto atentar contra a base alemã com os caminhões carregados de bombas.

Já o Executivo reconheceu que houve um número incerto de vítimas civis, que a Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) chegou a cifrar em mais de 70.

A imprensa divulgou parte dos diversos relatórios elaborados pela Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), pela força multinacional Isaf, pelo CICV, pela Polícia militar alemã e por outros, que apontam para erros de gestão por parte do comandante militar alemão em Kunduz, o coronel Georg Klein.

Entre os assuntos tornados públicos e que ocuparão a comissão parlamentar está o se o ataque teve como alvo exclusivo destruir os caminhões ou "aniquilar" os talibãs, como alega um dos relatórios citados pela imprensa.

Em sua primeira sessão constituinte, a comissão elaborou uma lista de mais de 40 testemunhas que deverão comparecer para declarar.

O porta-voz do Partido Social-Democrata Alemão (SPD) na comissão, Rainer Arnold, informou que um dos primeiros será Guttenberg. A chanceler alemã, Angela Merkel, também será chamada a declarar, assim como outros ministros e militares.

Apesar de Guttenberg ainda ocupar a pasta de Economia quando os fatos aconteceram, a oposição quer que esclareça na comissão o que o levou a mudar radicalmente de opinião sobre o ataque, ao passar de qualificá-lo de "militarmente acertado" para "militarmente não acertado".

Guttenberg argumentou que foram os relatórios que Schneiderhan e Wichert ocultaram que determinaram sua mudança de opinião, mas os detalhes publicados pela imprensa refletem que o primeiro relatório elaborado pelo comandante da Isaf no Afeganistão, o general Stanley McChrystal, incluía todos os aspectos problemáticos da operação.

À parte dos detalhes da operação em si, a comissão analisará outra questão, que, até o bombardeio, tinha interessado pouco: como deve definir a missão no Afeganistão.

O defensor do soldado no Parlamento, Reinhold Robbe, convidou a comissão a aproveitar a investigação para abrir um "debate sincero" sobre o alvo concreto da missão.

Com isso, Robbe aludiu ao problema da falta de segurança legal que rodeia a operação, nascida oficialmente como uma missão de "estabilização" de caráter meramente defensivo, mas que, enquanto isso, está sendo qualificada pela maioria dos analistas de uma participação em um "conflito armado não internacional", o que permitiria operações ofensivas.

O próprio Guttenberg se mostrou hoje partidário de aproveitar a situação para criar "segurança legal" para os soldados destacados no Afeganistão, uma questão que, segundo ele, é "existencial" para pessoas que "lidam com a vida".

O secretário parlamentar de Defesa, Christian Schmidt, assegurou hoje, em uma interpelação no Bundestag, que o Governo não mudou sua estratégia no Afeganistão e que toda a operação foi realizada no marco permitido pelo mandato das Nações Unidas.

O debate se produz em um momento em que Berlim deve planejar se eleva o número de soldados no Afeganistão e se atende, assim, o pedido da Otan. EFE ih/pd

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