Parentes de vítimas do 11 de Setembro divergem sobre mesquita

Construção perto de Marco Zero de Nova York confronta a liberdade religiosa nos EUA com a memória dos mortos em ataque

Silvana Mautone, especial para o iG, de Nova York |

O debate sobre a construção de uma mesquita perto do chamado Marco Zero , local onde ficavam as Torres Gêmeas, em Nova York, coloca em confronto a questão da liberdade religiosa nos Estados Unidos e a dolorosa memória das vítimas que morreram nos atentados do 11 de Setembro de 2001.

Inúmeras pessoas classificam o projeto como uma decisão insensível, uma agressão desnecessária, uma celebração aos terroristas islâmicos que praticaram os ataques em nome do Islã.

Mas nem todos pensam assim. Há quem veja a iniciativa como uma oportunidade de aprofundar o diálogo inter-religioso no país e de esclarecer a diferença entre muçulmanos e fanáticos fundamentalistas. O iG conversou com alguns familiares e amigos de pessoas que morreram no atentado ao World Trade Center (WTC). Leia a seguir suas opiniões.

Arquivo pessoal
Neda Bolourchi perdeu sua mãe, Touri, de 69 anos, nos ataques contra as Torres Gêmeas de Nova York
Neda Bolourchi

A mãe de Neda Bolourchi, Touri, de 69 anos, estava no voo 175 da United Airlines que se chocou contra a Torre Sul do WTC, a segunda a ser atingida no atentado. Ela voltava para casa, em Los Angeles, depois de visitar uma das filhas que morava em Boston.

Neda é naturalizada americana. Ela nasceu no Irã pouco antes da Revolução Islâmica, em 1979, que acabou levando os aiatolás ao poder.

“Não tenho aonde ir para levar flores para minha mãe. Tenho apenas o Marco Zero. Por isso não quero que esse lugar tenha nenhuma conotação política ou religiosa. Quero que ele seja um local neutro. Sei que a mesquita não ficará exatamente lá, mas será muito perto, apenas a dois quarteirões. Quando vou ao Marco Zero, não quero lembrar das pessoas que mataram a minha mãe. Não pratico o islamismo, mas nasci numa família muçulmana, conheço a religião. Sei que parte da ideologia é ruim, e é nessa parte que os terroristas que mataram a minha mãe acreditavam. Reconheço que os muçulmanos têm o direito legal de construir a mesquita ali, mas espero que respeitem a opinião dos parentes das vítimas como eu e escolham outro lugar.”

Arquivo pessoal
Terry Rockefeller e sua irmã Laura (à dir.), que morreu nos ataques do 11 de Setembro
Terry Rockefeller

A documentarista Terry Rockefeller perdeu sua irmã Laura, de 41 anos, no atentado. Laura ajudava a organizar um evento no restaurante que funcionava no topo da Torre Norte do WTC . Ela trabalharia apenas dois dias ali.

Terry faz parte do grupo September Eleventh Families for Peaceful Tomorrows (Famílias do 11 de Setembro para Amanhãs Pacíficos, em tradução livre), formado por parentes de vítimas que são contra o uso da violência em resposta ao ataque terrorista.

“Não quero que ocorra nenhum tipo de violência e de violação constitucional em nome da memória da minha irmã. Não quero que nenhum direito civil seja negado. Ela ficaria devastada se isso acontecesse. A liberdade de religião foi uma das principais razões que fizeram tantas pessoas imigrar para os Estados Unidos. Todos, de qualquer crença, têm o direito de construir suas igrejas e templos em qualquer lugar. Como podemos definir se dois quarteirões de distância do Marco Zero ou dez, vinte são suficientes? É esse tipo de discussão que acontece quando a sociedade começa a discriminar pessoas. No passado, tivemos lugares que proibiam a presença de negros. Acho que a construção da mesquita ali pode ser uma grande oportunidade para de fato se iniciar um diálogo inter-religioso nos Estados Unidos.”

Susan

Susan perdeu um amigo de 26 anos no atentado. O jovem participava de uma reunião de trabalho em uma das empresas que funcionavam no WTC.

Susan, que prefere não revelar seu sobrenome, já fez parte do Partido Democrata, mas hoje pensa em se filiar ao Partido Republicano, conservador. Ela criou o blog Urban Infidel, no qual divulga protestos contra a construção da mesquita perto do Marco Zero.

“Acho que a decisão de construir uma mesquita tão perto do WTC é intencionalmente provocativa. É um desrespeito aos familiares das vítimas. Parece um tipo de glorificação aos autores do atentado. Se alguém na sua família é assassinado, você não convida o assassino para visitar sua casa. Se o objetivo dos muçulmanos é mesmo promover o diálogo entre diferentes religiões, por que começar provocando briga? Por que eles não usam os US$ 100 milhões previstos para a construção desse centro islâmico para erguer um centro de tolerância religiosa na Arábia Saudita, no Iraque ou na Síria? Se uma mesquita for mesmo construída ali, eu só espero que os nossos serviços de segurança acompanhem de perto essas pessoas que vão frequentar o local.”

Arquivo pessoal
John Leinung (à dir.) perdeu seu enteado, Paul Battaglia, nos ataques terroristas contra Nova York
John Leinung

O enteado do editor de vídeos John Leinung, Paul Battaglia, trabalhava há poucos meses como consultor de segurança em uma empresa cujo escritório funcionava no 100º andar da Torre Norte do WTC , a primeira a ser atingida no atentado.

Ele tinha 21 anos e havia acabado de se formar em administração de empresas pela Universidade do Estado de Nova York, na cidade de Binghamton.

“Não vejo nenhum problema em uma mesquita ser construída a dois quarteirões do Marco Zero. Conheço muçulmanos que perderam familiares no atentado. Morreram pessoas de todas as religiões. Tenho também amigos muçulmanos que ficaram tão chocados como qualquer outra pessoa com o que aconteceu naquele dia. Meu enteado não morreu por causa do islamismo, mas por causa do fanatismo. E fanatismo existe em todas as religiões. A nossa Constituição garante liberdade de crença. Isso quer dizer que o governo não pode dizer em qual religião podemos ou não acreditar, em qual local podemos ou não praticá-la. Se queremos que essa garantia permanença para todos, temos de concedê-la também a quem pensa diferente de nós.”

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