Parentes dançam com familiares mortos em Madagascar

Para os estrangeiros, a tradição malgaxe da famadihana, ou virada dos ossos - em que parentes de um defunto exumam o corpo anos após a morte e dançam com o cadáver - pode parecer assustadora. Mas, para a população da ilha africana, trata-se um ritual que mostra respeito pelos antepassados e transforma a dor da perda em alegria.

BBC Brasil |

Não longe do vilarejo de Vatolaivy, uma multidão se reúne no alto de um colina para participar do ritual. Eles estão acompanhados por uma banda com clarinetes e trompetes, que está tocando há horas.

As pessoas conversam e sorriem, muitas estão bêbadas, a maioria está dançando e por perto há camelôs vendendo cigarros e iogurte.

Mas é a sepultura na colina que concentra as atenções. Ou melhor, os seus ocupantes.

Pedreiros chegam e retiram a porta de pedra da baixa estrutura de tijolos ao redor da qual a festa está ocorrendo. E Roger, cujos familiares estão enterrados no jazigo, me convida para entrar.

Dentro do jazigo, há várias camas de pedra, sobre as quais repousam os pais e avós de Roger, enrolados em um tecido amarelado.

Dança
Roger me apresenta para os seus parentes formalmente, tocando levemente cada corpo para identificá-los para mim.

Eu novamente encaro o sol do lado de fora. Atrás de mim, cada corpo é carregado com cuidado para fora do jazigo e colocados no chão pelos seus parentes.

As demais pessoas ficam em volta, assumindo o papel de expectadores deste teatro familiar.

Finalmente, a banda para de tocar e um silêncio relativo paira no ar. Vejo uma menina abraçando o corpo da mãe - ela não emite nenhum som, mas as lágrimas atravessam seu rosto.

Em seguida, os parentes retiram o tecido que envolve os corpos e o substitui por outro, novo, chamado lambas, bem caro por aqui.

É então que o clima volta a ficar mais festivo.

Os cadáveres são levantados na altura dos ombros e, em meio a risadas, os parentes os carregam e dançam com eles ao redor das tumbas.

Depois de alguns passos, com um grito de alegria, os carregadores levantam o morto ainda mais alto.

Eu percebo que a menina que estava chorando mais cedo agora está sorrindo e fazendo piadas, como as demais pessoas. Como se, quase na marra por causa das exigências do ritual, o luto tivesse se convertido em alegria.

"É importante porque é nossa forma de respeitar os mortos", diz Jean Pierre, um membro da família, sobre o ritual. "É também uma chance de toda a família, de todo o país, se juntar."
Origens
A famadihana é uma tradição exclusiva de Madagascar e existe há séculos. Antropólogos acreditam que ela mostra uma identidade da ilha com tradições do sudeste da Ásia, de onde vieram os seus primeiros colonizadores.

Para o antropólogo Maurice Bloch, que estudou o ritual, a idéia da reunião entre mortos e vivos e a terra da família é a chave para compreendê-lo.

Segundo ele, o ritual é uma evocação do "estar junto novamente", uma forma de permitir que os mortos possam novamente experimentar as alegrias da vida. Mas, mais importante que isso, a famadihana é um ato de amor.

Mas alguns se opõem à prática. Nas cidades malgaxes, certas pessoas consideram o ritual ultrapassado e fora de compasso com o século 21.

Também houve problemas com missionários cristãos, que tentaram acabar com o ritual - e hoje um número crescente de evangélicos está abandonando a famadihana.

Mas, talvez surpreendentemente, a igreja católica, a maior do país, não mais se opõe ao ritual.

Jean Pierre deixou claro qual pode ser o motivo disso. Em Madagascar, essa "exumação alegre" não é uma cerimônia religiosa. É uma tradição.

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