Paraguaios esperam mudanças rápidas com novo governo

Ao tomar posse nesta sexta-feira, o novo presidente do Paraguai, Fernando Lugo, inicia um governo cercado de expectativa em um país que passou os últimos 61 anos sob o comando de um único partido. Uma pesquisa realizada pela consultoria paraguaia First Analysis indica que 75% da população acredita que o país vai melhorar com o novo governo, e quase 60% das pessoas consultadas esperam resultados dentro de um período de até dois anos.

BBC Brasil |

Moradores da capital paraguaia, Assunção, ouvidos pela BBC Brasil confirmam a tendência verificada na pesquisa. Todos os entrevistados afirmaram esperar que Lugo promova mudanças e renovação depois de seis décadas de governo do Partido Colorado.

"Tenho 40 anos e sempre votei no Partido Colorado. Mas em 60 anos eles não mudaram nada. Por isso, desta vez, votei em Lugo", disse o taxista Rafael Bento.

Bento disse acreditar que Lugo vai mudar o país e "dar saúde e educação" para seus filhos.

Segundo o diretor da First Analysis, Francisco Capli, o desejo do taxista reflete a expectativa manifestada na pesquisa, que ouviu mil pessoas em todo o país.

Capli disse à BBC Brasil que saúde, educação e emprego aparecem em primeiro lugar entre as prioridades dos paraguaios.

"Sete em cada 10 consultados acreditam que Lugo vai melhorar esses setores em até dois anos", disse Capli.

Congresso
Sem maioria no Congresso e com uma coalizão de governo na qual há disputas internas entre diferentes correntes, o novo presidente terá o desafio de cumprir suas promessas e corresponder às expectativas da população.

Analistas afirmam que Lugo terá de negociar tanto com a oposição quanto dentro do próprio governo para conseguir aprovar reformas.

Os setores eleitos pelos paraguaios como prioridade enfrentam graves problemas.

De acordo com Capli, o sistema de saúde paraguaio "é um desastre", com falta de hospitais e serviços de emergência, e cerca de 65% dos paraguaios tem apenas cinco anos de escolaridade.

No setor de emprego, calcula-se que durante o último governo o subemprego passou de 22% para 26%.

A pesquisa indica que os paraguaios não querem saúde, educação e emprego de maneira genérica, mas esperam resultados práticos para suas famílias.

"Espero, sobretudo, que o presidente nos dê mais emprego", disse a dona-de-casa Aida Alvarez, de 50 anos, que afirma não ter votado em Lugo, mas estar confiante em seu governo.

Assim como a dona-de-casa, muitas das pessoas ouvidas pela BBC Brasil em Assunção disseram ter votado em outros candidatos, mas mesmo assim têm grande expectativa em relação ao novo presidente.

Lugo, um ex-bispo católico identificado com movimentos sociais de esquerda, obteve uma vitória histórica nas eleições de abril ao derrotar a candidata colorada, Blanca Avelar.

Ele conseguiu o sucesso nas urnas como representante de uma coalizão criada para fazer frente aos colorados, a Aliança Patriótica para a Mudança (APC, na sigla em espanhol), que reúne desde o Partido Liberal (PLRA), o mais tradicional do Paraguai ao lado do Partido Colorado, até pequenas siglas e movimentos de esquerda.

Segundo analistas, apesar da identificação do novo presidente com a esquerda, ele foi eleito por seguidores de diversas ideologias, que tinham como objetivo comum o desejo de mudança no governo.

Corrupção
Muitos dos entrevistados pela BBC Brasil disseram esperar que o novo governo combata a corrupção, problema considerado crônico no Paraguai.

"Não votei nele, mas creio que está começando bem e espero que consiga cumprir suas promessas", diz o economista Pedro Galeano, de 26 anos.

Galeano afirma que os paraguaios têm uma grande expectativa de que esse governo será "diferente", especialmente no que diz respeito ao combate à corrupção.

Na pesquisa realizada pela First Analysis, porém, o combate à corrupção não aparece com tanto destaque quanto saúde, emprego e educação.

"A corrupção é um problema muito debatido no país, pela imprensa, mas as pessoas querem é solução para problemas mais urgentes", disse Capli.

Segundo o consultor, Lugo inicia seu governo com uma imagem muito positiva e a aceitação de cerca de 90% da população.

Sua posse é considerada por analistas o início de uma nova fase na transição democrática do país: a alternância de poder.

A transição democrática no Paraguai começou em 1989, quando o general Alfredo Stroessner foi derrubado depois de 34 anos no poder.

No entanto, apesar da democratização, o governo permaneceu nas mãos do partido de Stroessner, o Colorado.

Em Assunção, as ruas já estão enfeitadas com bandeiras para a cerimônia desta sexta-feira. No centro da capital, o policiamento foi reforçado.

A posse de Lugo será acompanhada por 11 chefes de Estado, entre eles o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que chega ao Paraguai na noite desta quinta-feira.

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