Paraguai quer resolver problemas com o Brasil depois da posse de Lugo

O ex-bispo católico Fernando Lugo, que assume nesta sexta-feira a presidência do Paraguai, anseia por resolver suas principais questões com o Brasil, ao qual pede multiplicar por sete os pagamentos pela energia vendida por Assunção.

AFP |

O presidente Luiz Inacio Lula da Silva, que assistirá à solenidade de posse de Lugo, "espera, no entanto, que se inaugure uma nova fase de aprofundamento da relação de aproximação e de cooperação" entre Brasil e Paraguai, disse o porta-voz presidencial de Lula, Marcelo Baumbach.

Fernando Lugo fez da questão de Itaipu um dos principais pontos de sua campanha à presidência, que acabou com 61 anos de poder contínuo do partido Colorado.

O futuro presidente paraguaio quer que o Brasil pague 1,8 bilhão de dólares anuais pela energia que compra do Paraguai em Itaipu - mais da metade do orçamento anual da usina, de US$ 3 bilhões. Atualmente, o Brasil paga 300 milhões de dólares.

Firmado em 1973 entre Brasil e Paraguai, pelos ditadores Alfredo Stroessner e Emílio Garrastazu Médici, o contrato de construção e funcionamento da usina de Itaipu terminará em 2023. Para os dirigentes brasileiros da hidrelétrica, representantes dos dois países poderão iniciar nova negociação sobre os valores repassados aos dois países apenas depois dessa data.

Lugo diz que o Paraguai está sendo lesado por ter ratificado um contrato que comercializa energia ao Brasil com base no preço de US$ 3 o barril do petróleo - hoje ele está acima de US$ 115.

Para a diretoria brasileira de Itaipu a conta é diferente. "Em 2008, o preço médio da energia garantida de Itaipu para a Eletrobrás é de 42,5 US$/MWh. A remuneração por cessão de energia no atual exercício resulta em 2,81 US$/ MWh. Portanto, o custo da energia cedida pelo Paraguai ao Brasil é de 45,31 US$/MWh", destaca análise da direção da usina.

O Paraguai não embolsa a diferença de US$ 42,5 por ser o valor que, segundo Itaipu, é revertido para pagar os empréstimos que o país contraiu com o Brasil na construção da usina. Parte do valor também é destinado à manutenção da estrutura administrativa da usina. A dívida está hoje em US$ 18,7 bilhões.

Essas reclamações têm tido grande repercussão na imprensa brasileira, ante o temor de que se repita uma situação como a da Bolívia, que conseguiu aumentar o preço do gás vendido ao Brasil depois da eleição do presidente Evo Morales.

Lugo e Lula não vão tratar do assunto durante a solenidade de amanhã, mas numa futura reunião, no Brasil, disse Baumbach.

O governo brasileiro indicou que não pretende rever o contrato de Itaipu. Ainda assim, não fechou todas as portas: "Estamos dispostos a conversar sobre as demandas, mas não gostaríamos de ver a relação vinculada a apenas um tema; o Brasil quer uma agenda de desenvolvimento econômico, de cooperação, com ênfase no desenvolvimento industrial" do Paraguai, explicou à AFP um alto funcionário da chancelaria brasileira.

A economia paraguaia depende em 60% de seu intercâmbio com o Brasil. Ambos integram o Mercosul, junto com Argentina, Uruguai, e com a Venezuela em processo de adesão. "Para o Paraguai, uma boa relação com o Brasil deveria ser irrenunciável", opinou o professor de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UNB), Amado Cervo.

O outro problema entre os dois países é o dos chamados "brasiguaios", um número estimado em 200.000 brasileiros que vivem no Paraguai.

"As terras dos brasiguaios foram invadidas esta semana e muitas plantações foram destruídas", denunciou uma empresa de consultoria brasileira.

"Nada temos contra os brasileiros, mas contra as transnacionais e latifundiários que cultivam soja e utilizam agrotóxicos muito fortes que não respeitam a população e provocam grandes problemas de saúde", disse à AFP o secretário-geral da Organização Nacional Camponesa, Angel Jimenez Lopez.

Leia mais sobre Paraguai


    Leia tudo sobre: paraguai

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG