Embora seja a favor da entrada de Caracas no bloco, presidente Fernando Lugo não conseguiu convencer opositores do governo

O Paraguai, cujo Congresso abriga a última trincheira de resistência à adesão da Venezuela ao Mercosul, assumirá a presidência do bloco na Cúpula de Foz do Iguaçu, nos dias 16 e 17 de dezembro, com o trâmite parlamentar bloqueado apesar do empenho de seu governo.

Embora defenda a entrada da Venezuela no bloco, o presidente do Paraguai, Fernando Lugo, ainda não conseguiu convencer a oposição e os setores do governo que se opõem, ao ponto que já se viu obrigado a retirar o projeto do Congresso duas vezes.

A última delas foi recentemente, após comprovar que a oposição e alguns setores do Partido Liberal Radical Autêntico (PLRA, de centro-direita), que apoia o governo, estavam decididos a votar contra, o que teria representado um golpe definitivo para a Venezuela.

No início deste mês, Lugo enviou outra vez o Protocolo de Adesão da Venezuela ao Mercosul ao Congresso, e também foi insistente com os setores que se opõem à iniciativa, mas seu apelo não surtiu efeito. "Este tema se politizou muito, e a Venezuela acabou identificada com (o presidente Hugo) Chávez", afirmou Lugo em entrevista à imprensa argentina no último dia 5. Ele questionou também "como é possível que três países do Mercosul (Argentina, Brasil e Uruguai) já tinham aceitado o ingresso da Venezuela no bloco" e o Paraguai ainda não.

Na imprensa paraguaia, o assunto é objeto de discussões de todo tipo, que vão desde a suposta intenção de Chávez de "subornar" senadores para que votem a favor da entrada da Venezuela ao bloco, até especulações sobre "chantagens" contra Lugo por parte de setores políticos que buscam fortalecer posições com cargos públicos.

Adesão

O Tratado de Adesão da Venezuela ao Mercosul foi aprovado pelos governos de Argentina, Brasil, Uruguai e Paraguai em julho de 2006 durante uma reunião realizada em Caracas, à qual compareceram os chefes de Estado dos cinco países e o presidente da Bolívia, Evo Morales, na qualidade de "convidado especial".

Os parlamentos de Argentina e Uruguai foram os primeiros a ratificá-lo, enquanto que no Brasil o trâmite demorou mais de dois anos e esteve envolto em polêmicas sobre a suposta postura "autoritária" do presidente Hugo Chávez.

A chave que abriu as portas do Mercosul para a Venezuela no Senado brasileiro foi proporcionada, paradoxalmente, pelo prefeito de Caracas, Antonio Ledezma, um dos mais duros opositores do "chavismo". Ledezma compareceu a Brasília e, apesar de reiterar críticas a Chávez, pediu para que fosse levado em conta que "uma coisa é o governo, e outra o Estado venezuelano".

Em uma das declarações que mais convenceu muitos opositores ao ingresso da Venezuela no Mercosul, Ledezma também advertiu aos parlamentares brasileiros que "Chávez será mais perigoso para a paz e a democracia na região na medida em que esteja isolado".

Mesmo assim, o resultado foi apertado. O Senado aprovou a adesão da Venezuela com 35 votos a favor e 27 contra em 15 de dezembro do ano passado, o que deixou a decisão final nas exclusivas mãos do Paraguai.

Na última semana, o subsecretário-geral para a América do Sul, Central e Caribe do Itamaraty, Antonio Simões, disse que o Mercosul já "demonstrou" que quer a Venezuela como membro pleno, mas esclareceu que o bloco não pode fazer nada para tentar convencer a quem se opõe no Paraguai.

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