Rodrigo Zuleta Berlim, 28 abr (EFE).- O destino do empresário alemão Oskar Schindler, cujo centenário é lembrado nessa segunda-feira, é provavelmente um dos mais paradoxais da história da Alemanha, onde foi esquecido durante muito tempo depois de ter salvo centenas de judeus durante o III Reich.

Schindler teve seu nome imortalizado no filme de Steven Spielberg, "A Lista de Schindler", mas antes disso, durante muito tempo, sua história tendeu ao desaparecimento da memória coletiva alemã, por figurar como um personagem incômodo.

O industrial entrou para a história - graças, em boa parte, ao filme de Spielberg - como um homem que burlou os nazistas e conseguiu salvar da morte pessoas que estavam sendo envidas às câmaras de gás.

Essa fama lhe rendeu o título de "justo entre os povos", concedido pelo Estado de Israel, em 1967.

O fato, no entanto, faz pensar que Schindler era um opositor do nazismo o que significa que o fim da guerra deveria lhe ter aberto melhores perspectivas de vida.

No entanto, sua biografia mostra uma imagem completamente oposta.

Schindler foi um homem de sucesso durante o III Reich, graças em parte ao seu oportunismo, enquanto após a guerra só colheu fracassos, até a sua morte, na pobreza.

Entre os atos organizados na Alemanha para o centenário de Schindler, está a exposição no Museu Judeu de Frankfurt que explora exatamente as razões desse esquecimento.

Depois da guerra, Schindler foi para a Argentina de onde retornou em 1957, sem sua esposa, Emilia, e viu fracassada sua tentativa de montar uma fábrica na localidade de Hanau, próxima de Frankfurt.

Sua situação se tornou tão precária que foram praticamente os judeus salvos por ele durante o III Reich, por meio de truques e subornos, que garantiram seu sustento.

"Sua história desaparecia várias vezes porque era incômoda demais para a sociedade alemã do pós-guerra na qual havia muitos cúmplices dos nazistas", disse Fritz Backhaus, do Museu Judeu.

"A história de Schindler mostrava que havia outras possibilidades de comportamento na época dos nazistas", acrescentou.

Os últimos anos de Schindler foram marcados pela pobreza. O industrial passou a viver em um modesto apartamento de um quarto, próximo da estação central de Frankfurt, e se afundou cada vez mais no alcoolismo.

Schindler morreu em 1974 na casa de amigos na cidade de Hildesheim e seu único legado foi uma mala na qual cabiam todos os seus pertences e onde estava a famosa lista com os nomes dos judeus que havia salvado.

O cadáver de Schindler foi transportado a Jerusalém, onde foi enterrado em um cemitério católico.

Apesar de outras homenagens, como a da Cruz Federal de Mérito adquirida em 1965, sua história sempre tendia ao desaparecimento cada vez que tentavam recordá-la.

Agora, além da exposição de Frankfurt, foi produzido um selo dos correios - em comemoração ao centenário - que lembra sua história.

Um canal de televisão, além disso, exibirá nessa segunda-feira "A lista de Schindler", e sem dúvida os jornais do dia lembrarão o controverso empresário.

O esquecimento destinado a Schindler durante muitos anos não ocorreu apenas na Alemanha. Nem na cidade tcheca Svitany, onde nasceu; nem na polonesa Cracóvia, onde teve sua primeira fábrica, utilizada para salvar judeus da morte certa, recebeu comemoração especial.

Svitany dedicou a ele um pequeno museu, porém negou o título de cidadão honorário póstumo. E na Cracóvia não existe uma única rua que lembre seu nome nem uma exposição permanente sobre sua vida.

Na República Tcheca, Schindler tende a ser visto como um alemão que colaborou com os nazistas. E na Polônia, segundo o jornal "Gazeta Wyborcza", teme-se que possíveis homenagens obscureçam o que foi feito por alguns poloneses que também salvaram vidas. EFE rz/bm/fb

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