Para Volpi, EUA e Brasil formam dois eixos de poder na América

Madri, 21 set (EFE).- O escritor e ensaísta mexicano Jorge Volpi considera que o continente americano caminha para integração, passando previamente pelo México, os Estados Unidos e o Canadá, no norte, e o restante dos países latino-americanos liderados pelo Brasil, no sul.

EFE |

"Brasil é o grande motor da América do Sul, na América do Norte, evidentemente a posição fica com os EUA. Os dois centros que concentram o poder na América são os Estados Unidos e o Brasil", enfatizou Volpi em entrevista à Agência Efe.

Nesta segunda-feira, escritor e diretor do Canal 22 de televisão do México participa em Madri como convidado da Caixa Fórum, de uma conversa com José Manuel Sánchez Ron, membro da Real Academia da Língua Espanhola e professor de História da Ciência, sobre o momento científico atual e seus desafios.

Volpi acaba de lançar no México o livro "El insomnio de Bolívar" (A insônia de Bolívar, em livre tradução), com o qual conquistou o 2º Prêmio Debate-Casa da América e que será publicado na Espanha no final de outubro.

O livro, composto por quatro ensaios, tenta refletir sobre os diferentes aspectos da realidade da América Latina partindo do que Volpi denominada como lugar comum, falar do subcontinente como uma unidade, porque atualmente os países que o integram têm poucos vínculos entre si.

Ele sustenta que os problemas que afligem à região se devem, por um lado porque os governantes não souberam corrigir as desigualdades existentes, e por outro pelo próprio descrédito que a democracia teve na América Latina, o que propiciou o ressurgimento do que chama caudilhos democráticos.

Denomina assim que "os líderes que foram escolhidos com regras democráticas, e que, com procedimentos aparentemente democráticos, subvertem a democracia, domínio de todo o aparelho do estado, todos os meios de comunicação, ou ameaçando-os ou pactuando com eles, ou simplesmente através de fórmulas como o plebiscito".

Destaca que entre eles há suas diferenças. "Chávez (Hugo) não é idêntico nem a Correa (Rafael) nem a Morales (Evo) e, claro, também não a Uribe (Álvaro), mas existe essa tendência de manter essas lideranças".

Por isso, aconselha, "seria preciso ver os exemplos de onde não ocorrem, sobretudo Brasil e Chile, e mais até no Brasil onde o presidente Luiz Inácio Lula da Silva também teve a possibilidade de fazer o mesmo que fez Uribe ou Chávez".

"Construiu uma liderança muito forte, com um enorme carisma e, no entanto, resistiu à tentação de subverter essa democracia modificando a Constituição. Isso indica que é possível esse outro modelo, e talvez o melhor exemplo é Lula".

Sobre o futuro, considera que a integração do México não parece que vá ser com a América do Sul ou como a América Central, mas diretamente com os EUA e Canadá, embora este processo seja muito incipiente ainda.

Enquanto na América do Sul há mecanismos importantes de integração como o Mercosul e a Unasul, "mas ainda uma enorme rivalidade entre vários países e enormes conflitos constantes", como os atuais entre Colômbia, Venezuela e Equador.

No norte, parece que a dinâmica social torna-se cada vez mais poderosa. "O número de mexicanos nos Estados Unidos já é importante não só em termos de população, mas políticos também".

"Apesar do nacionalismo, desta postura dos EUA de isolar-se, e de ter impedido que o Tratado de Livre Comércio se transformasse em um veículo de integração, seria preciso imaginar que nos próximos 50 anos será necessário abrir, porque esta é única maneira de recomeçar a recuperação econômica e é a maior possibilidade de continuar sendo uma grande potência mundial", afirmou.

Sobre o narcotráfico e a guerra declarada pelo presidente Felipe Calderón, Volpi destaca que o problema não está restrito ao conflito mexicano. "É um conflito no que os EUA têm uma importância crucial" já que os consumidores estão desse lado da fronteira.

"Uma solução local mexicana é impossível. Tem que ser binacional com os EUA e provavelmente multilateral com outros países".

Segundo o escritor, cada vez está mais claro "que muitos dos chefes do tráfico passaram para o outro lado. Atlanta, por exemplo, se transformou em uma das cidades onde o tráfico de droga é mais poderoso, porque essa é a dinâmica natural entre os dois países".

Além disso, Volpi acredita que "a única solução possível" ao problema do narcotráfico é a legalização da droga, o que parece muito distante, por razões morais e de saúde pública aplicadas nos EUA, particularmente.

"Como ocorreu com a proibição do álcool nos EUA, que foi um absoluto fracasso, a proibição da droga também está sendo. Gera uma grande quantidade de violência, de dinheiro, que com o tempo resulta impossível de parar", acrescentou. EFE mlg/dm

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