Para pesquisador, AL tem cúpulas demais e conteúdo de menos

A partir de uma iniciativa do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, chefes de Estado e chanceleres de 33 países participam, na Bahia, da 1ª Cúpula da América Latina e do Caribe (Calc). Ainda nesta semana, acontecem reuniões de Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, da Unasul e do Grupo do Rio - todos envolvendo países da região.

BBC Brasil |

O pesquisador Alfredo Valladão, da Universidade de Paris, questiona o excesso de encontros e critica a postura brasileira diante dos países vizinhos. Segundo ele, a política externa do país é "limitada" e reflete a crise de identidade de sua elite.

"O Brasil não sabe se quer ser o primeiro entre os pobres ou o último entre os ricos", diz.

Em entrevista à BBC Brasil, Valladão - que é professor da cátedra de Mercosul do Instituto de Estudos Políticos - diz que iniciativas como a Calc são bem-vindas, mas é preciso que tenham "mais conteúdo".

BBC Brasil - Alguns países da América do Sul passam por um momento conflituoso. Até que ponto uma cúpula dessa natureza pode contribuir para melhorar o cenário?
Valladão - Essas cúpulas me fazem lembrar aquelas bonecas tradicionais russas (matrioshkas). Vem uma atrás da outra e é tudo vazio... Não quero minimizar a importância desses encontros. Ao contrário: acho que são extremamente importantes, mas é preciso mais conteúdo.

BBC Brasil - Que tipo de conteúdo seria possível, frente a um grupo com interesses tão diversos?
Valladão - É claro que todo grupo de países tem seus problemas. Principalmente agora, com a iminência de uma recessão global. Mas o que vejo no momento, na América Latina, é uma corrida retórica. Diante de tantos problemas, o que se faz? Cria-se uma nova cúpula. As discussões não avançam e o resultado é... uma nova cúpula. Volto a dizer que esses encontros são bem-vindos, mas essa corrida retórica precisa de um limite. É preciso repensar esses encontros, voltando-se mais à realidade dos fatos.

BBC Brasil - O Brasil tem sido cada vez mais alvo de críticas dos países vizinhos. O que explica esse movimento?
Valladão - O Brasil quer a liderança, mas esse posto tem um preço que o Brasil não está disposto a pagar. Não estou falando de concessões econômicas. Isso também. Mas o que mais tem incomodado os outros países da região é que o Brasil quer ser líder, mas não está disposto a fazer concessões políticas. Os países latinos querem participar das decisões, querem que o Brasil seja a ponte entre eles e as grandes discussões mundiais. Isso o Brasil não quer. Exemplo disso é que o Brasil tem sido sempre contrário à criação de instituições supranacionais no Mercosul.

BBC Brasil - Mas se o Brasil crescer, a região cresce junto, não?
Valladão - Sim, mas na política a lógica não é tão simples. Durante anos reclamamos dos investimentos dos americanos no Brasil, que não havia contrapartida. Nós somos para a América Latina o que os Estados Unidos já representaram para nós.

Nós agora somos o "grandão" do bairro. E quem é grande tem de se habituar a ser xingado. O próprio peso e a importância econômica do Brasil fazem com que os outros nos vejam com um sentimento dúbio, de parceria, mas também de ameaça. E como não estamos pagando o preço da liderança, cresce o sentimento de antipatia.

BBC Brasil - A política externa brasileira para a região está errada, então?
Valladão - Eu diria que ela está limitada, por não saber o que quer. A questão é ainda mais profunda: a própria elite brasileira não sabe o que quer e a diplomacia reflete isso. O Brasil não sabe o que quer ser. Não sabe se quer ser o primeiro entre os pobres ou o último entre os ricos.

Se o país quer ser líder, se quer criar a Calc, então terá de se aceitar o custo político para criar uma verdadeira comunidade sul-americana. Ser líder implica, por exemplo, tomar iniciativas. No caso entre Uruguai e Argentina, sobre a construção da fábrica de celulose, devíamos ter tentado intermediar uma conversa. Temos que tomar posições. Temos que decidir se o governo (venezuelano de Hugo) Chávez é autoritário, temos que chegar a uma conclusão sobre as Farc e por aí vai.

BBC Brasil - Mas isso não vai de encontro à política externa tradicional brasileira?
Valladão - Sim, mas a partir do momento em que um país quer ser líder, ele precisa tomar partido. Veja, o Brasil vem se esforçando para conseguir uma cadeira permanente no Conselho de Segurança da ONU (Organização das Nações Unidas). Será que as pessoas têm idéia do que isso significa? Isso significa tomar uma posição quase todo dia, em assuntos delicados. E mais: implementar de fato as idéias que você defende. O Brasil tem que se perguntar se está preparado para isso.

Não estou defendendo uma política imperialista, de intervenção nos países vizinhos. Mas acho que o Brasil tem de decidir o que quer e, a partir daí, ter um diálogo mais claro, mais honesto com os países da região. Não dá para continuar multiplicando as iniciativas, para mostrar que estamos interessados, e depois sermos tímidos.

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