Para especialistas, Obama vai fechar Guantánamo, mas guerra ao terror continua

Ao longo da campanha, o presidente eleito Barack Obama prometeu fechar a prisão de Guantánamo, em Cuba, um dos símbolos do governo de George W. Bush. Para especialistas ouvidos pela reportagem do Último Segundo, ele provavelmente vai honrar a declaração. O problema, apontam, é a permanência do ¿espírito de Guantánamo¿: a guerra ao terror, lançada pela administração republicana, não deve acabar no novo governo.

Luísa Pécora, do Último Segundo |


Desde que foi aberta, em 2002, Guantánamo manteve mais de 750 detentos, muitos deles capturados em varreduras ou trocados por recompensas na época em que os Estados Unidos buscavam encontrar membros da Al Qaeda e grupos associados, após os ataques de 11 de setembro de 2001. Organizações de defesa dos direitos humanos exigem que Obama ponha fim à base, famosa por instituir a tortura como método de interrogação.

As primeiras movimentações do governo democrata apontam para um misto de mudança e continuidade. Ao mesmo tempo em que a equipe de Obama anuncia que os dirigentes das agências de inteligência serão modificados, também há rumores de que o atual Secretário de Defesa, Robert Gates, vá permanecer no cargo. Membros do Partido Republicano, tradicionalmente mais falcões, bélicos, em questões de política externa, devem ser convidados a participar da nova administração.

Para alguns analistas, a grande questão, na verdade, é saber qual a atitude de Obama diante da suposta rede de prisões secretas controladas pela CIA no exterior. O risco de ocorrer um atentado terrorista no início da administração Obama, como forma de testá-la, poderia levar o governo a assumir posição mais cautelosa em relação a essas outras prisões.

O cientista político Flávio Rocha de Oliveira, coordenador do curso de Política e Relações Internacionais da Escola de Sociologia e Política de São Paulo (ESPSP), afirma que, muita vezes, essas prisões controladas pelas agências de inteligência da CIA contam com a ajuda dos governos de países da Europa Oriental.

Ele ressalta que outro método bastante usado pela administração Bush é a extradição de suspeitos de terrorismo. Capturados sobretudo no Afeganistão e no Iraque, esses supostos terroristas são enviados para seus países de origem, geralmente os aliados Egito e Arábia Saudita, onde são torturados.

Guantánamo vai ser fechada, mas a prática de extradição vai continuar. Se vai aumentar ou diminuir, não se sabe, mas os Estados Unidos vão continuar transferindo o problema para um aliado que esteja disposto a fazer o trabalho sujo, diz o analista.

O norte-americano Sean Purdy, professor de História da América na Universidade de São Paulo, acredita que Guantánamo será fechada por ser uma vergonha para os Estados Unidos, e não devido a uma posição anti-guerra ao terror do novo presidente.

Obama fala que vai tirar as tropas do Iraque, mas também fala que vai redirecionar parte dessa tropa para o Afeganistão. Não se trata de uma posição anti-guerra, e sim de uma diferença tática e estratégica em relação a do governo Bush, afirma.

À espera de julgamento

Fechar Guantánamo, contudo, significa dar um destino para os cerca de 255 prisioneiros que continuam ali. Entre eles, há cerca de 50 já liberados das suspeitas, mas que não podem ser repatriados porque correm o risco de serem torturados e perseguidos em seus países de origem.

Sean Purdy acredita que os presos poderão ser transferidos para prisões militares americanas, e que o fato de grande parte das provas contra eles terem sido obtidas sob tortura faz com que elas percam valor no tribunal. Muitos advogados americanos importantes, até de grandes firmas, estão defendendo os prisioneiros gratuitamente, por questão de princípio, conta.

Já o cientista político Flávio Rocha de Oliveira pondera que o principal objetivo do governo dos Estados Unidos não era obter provas contra os prisioneiros, e sim informações que ajudassem a inteligência do país a desarticular a Al-Qaeda e outras redes terroristas.

Julgar esses prisioneiros é um objetivo secundário, explica, salientando que tais informações continuam sendo de extremo interesse para o governo do país. O que o Bush conseguiu, o Obama não vai jogar fora. O que ele vai fazer é tentar remover as características do governo passado, dentro do propósito de melhorar a imagem dos Estados Unidos.

Para o analista, a base que hoje é condenada pela opinião pública internacional pode, no futuro, ser encarada como uma das razões pelas quais os Estados Unidos não foram alvo de nenhum ataque terrorista depois de 11 de setembro.

É muito provável que o governo Bush fique historicamente classificado como negativo, mas também pode ser que algumas decisões que ele fez não sejam consideradas tão erradas com o passar do anos, explica, lembrando que o governo Ronald Reagan, que apoiou ditaduras é visto como positivo e vitorioso por ter derrotado a União Soviética. Por enquanto, afirma, a história ainda não julgou o Bush.

Com informações da Reuters

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