Para Belluzzo, é quase impossível BC segurar câmbio sozinho

O economista da Universidade de Campinas (Unicamp), Luiz Gonzaga Belluzzo, acredita que é praticamente impossível para o Banco Central brasileiro controlar a atual volatilidade no câmbio. O impulso dos que querem mudar de posição (de real para dólar), além da saída de capitais da bolsa, torna essa tarefa praticamente impossível.

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Para ele, hoje existe "uma bagunça cambial" e é preciso encontrar outros mecanismos para diminuir a volatilidade da moeda brasileira.

"Um bom exemplo é essa linha de troca de moedas com o Federal Reserve, que para mim é um potente instrumento de concessão de liquidez em moeda estrangeira."

Nesta entrevista à BBC Brasil, o economista também falou de inflação, gastos públicos e de como os livros de John Maynard Keynes só são retirados da pratileira "quando a crise aperta".

BBC Brasil - O governo trava, no momento, uma luta para reduzir a variação do dólar. Até que ponto essa oscilação é danosa para a economia?

Nenhum país consegue conviver com uma flutuação desse tamanho. Por um lado, o dólar flutuante ajuda a regular os movimentos do balanço de pagamentos. Numa economia em que você tem movimento de capitais, que obedece a conjecturas, expectativas e especulações sobre o dólar como um ativo, essas flutuações são muito prejudiciais para a economia real.

As pessoas alegam que o câmbio fixo é complicado quando se tem movimento de capitais. Claro. Mas ficou provado que tampouco funciona quando se tem o câmbio flutuante e movimento brusco de capitais, que fazem valorizar e desvalorizar a moeda bruscamente.

Não foi por acaso que Keynes, em Bretton Woods, propôs cambio fixo, mas ajustável, pois ele sabia que essas flutuações muito bruscas da taxa de câmbio eram danosas para as decisões empresariais.

BBC Brasil - O senhor defende a volta ao câmbio fixo?

Não. O que precisamos hoje é de um sistema coordenado. No momento, o mercado está tateando, não sabe mais qual é o preço do dólar como ativo. Por isso é que vemos os bancos centrais tentando trabalhar de forma conjunta. Eles estão fazendo o papel que originalmente foi proposto ao Fundo Monetário Internacional, que por uma série de motivos políticos e econômicos, não conseguiu regular os mercados. Esse papel hoje está nas mãos dos bancos centrais, e que também já demonstraram certas falhas.

O mundo precisa de um emprestador de última instância, como era originariamente a função do FMI. Não era permitir que as taxas ficassem fixas, mas permitir que elas se movimentassem dentro de certas regras. Além disso, proviria liquidez, de um ponto de vista de interesse coletivo, aos países que estivessem com problemas no balanço de pagamentos. O problema é que nunca funcionou direito, com os Estados Unidos colocando empecilhos.

BBC Brasil - As intervenções do Banco Central brasileiro no mercado de câmbio não têm surtido o efeito esperado. Por quê?

É claro. O impulso dos que querem mudar de posição (de real para dólar), além da saída de capitais da bolsa, torna essa tarefa praticamente impossível.Precisamos ter claro que a forma final da riqueza universal numa economia como essa é a moeda reserva, ou seja, o dólar. As outras moedas são simplesmente veiculares. Veja a Hungria: o banco central aumentou os juros e ainda assim os investidores foram embora.

Lembro do Brasil em 1999. Na época, o presidente do BC estava montado em US$ 70 bilhões em reservas e o mercado veio, tomou o dinheiro e foi embora. As intervenções ficam sem efeito. O mercado aposta contra e tem bala suficiente.

BBC Brasil - Qual o caminho? Deixar como está?

O que existe hoje é uma bagunça cambial. É preciso aplacar esse movimento do câmbio de outras maneiras. Um bom exemplo é essa linha de troca de moedas com o Federal Reserve, que para mim é um potente instrumento de concessão de liquidez em moeda estrangeira. Se não for assim, você vai lutar em vão contra essa desvalorização.

BBC Brasil - Os bancos centrais do mundo inteiro estão baixando juros. No Brasil, vários analistas acreditam que haverá amento da taxa... Estamos na contramão?

Olha só o dilema da política monetária. Eles estão vendo que a desvalorização está afetando os preços domésticos, via câmbio. E ao mesmo tempo estão vendo que a recessão caminha a passos largos no mundo inteiro e provavelmente teremos desaceleração aqui também. O BC está metido numa confusão. Minha opinião é de que aumentar os juros agora não vai adiantar nada. Não vamos conseguir aplacar esse movimento do câmbio.

BBC Brasil - Mesmo com a inflação fora da meta?

A política de metas é uma política de coordenação de expectativas. Não é para você acertar, não é concurso de arco e flecha, que você tem que acertar no alvo. Você tem, na verdade, que coordenar as expectativas de modo a ficar próximo do alvo.

Às vezes, por conta de um choque externo, afasta um pouquinho, depois o ambiente externo melhora, você aproxima. Por isso você tem as bandas. A política de metas não é necessariamente uma política de fixação na idéia de que você tem sempre que aumentar os juros. É uma política de regulação entre a formação de expectativa de inflação e as condições de formação de preços na economia real.

BBC Brasil - O ministro Mantega disse que o governo está preparado para aumentar seus gastos, se for preciso, no sentido de amenizar a crise. Essa é a hora de gastar ou de cortar?

Se você tem uma recessão e corta gastos, você vai correr atrás do rabo. Corta-se o gasto, a recessão aprofunda, há queda do nível atividade, reduz-se a arrecadação e, assim, você aprofunda a recessão. Quando a economia passa de um período de crescimento para um período recessivo, você não pode cortar gastos.

Se você não tem um agente externo capaz de gastar e assegurar a renda, isso aí vai aprofundando a crise. Não é para sair por aí distribuindo salário. É preciso gastar de maneira focada, nos setores que são multiplicadores de renda, aqueles que geram emprego.

BBC Brasil - Não seria recomendável, então, reduzir os gastos na época de bonança? O governo brasileiro não deveria ter realizado uma reforma fiscal?

O governo tem um superávit primário de 4,3% do PIB, que não é desprezível. Agora, houve conflito entre a política monetária e a política fiscal. Se tivéssemos com uma taxa de juros a 12%, poderíamos falar em superávit nominal.

Uma das razões pelas quais é importante fazer superávit é que supostamente você facilitaria a política monetária. O problema é que a política de metas do Banco Central brasileiro é capenga. Não houve uma gestão adequada à política de metas. Usamos o câmbio para jogar a inflação abaixo da meta. Isso não tem sentido.

BBC Brasil - Os países ricos, como EUA e Grã-Bretanha, defendem a participação do governo para salvar os bancos. O ex-presidente do Fed, Alan Greenspan, admitiu que os mercados não são auto-suficientes. Que impacto isso tudo trará aos estudos sobre Keynes?

Sou um cético. Keynes é sempre tirado da prateleira quando a crise aperta. Passado esse momento, haverá novamente a tentativa de nos convencerem de que os mercados são auto-suficientes. O fato é que Keynes ou não é estudado ou é mal-interpretado. Hoje em dia, economistas de 40 e poucos anos e com boa formação não leram a Teoria Geral do Emprego. No Brasil, os estudos estão localizados em pouquíssimas universidades, entre elas a Unicamp e a Universidade Federal do Rio (UFRJ).

A idéia de que Keynes recomendava o aumento de gastos indiscriminadamente é equivocada, mas está marcada no imaginário social. Eu o considero, junto com Roosevelt (presidente americano de 1933 a 1945) o grande humanista do século 20.

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