Para analistas, reunião de Obama e Netanyahu aumentou distância entre EUA e Israel

O encontro entre o presidente americano Barack Obama e o primeiro-ministro israelense Binyamin Netanyahu nesta semana aumentou ainda mais a distância entre os Estados Unidos e Israel, segundo analistas israelenses. Os líderes não concordaram em quase nada, afirmou o analista político do jornal Yediot Ahronot, Nahum Barnea.

BBC Brasil |

Para Yaron Dekel, analista do canal estatal da TV israelense "nesseencontro ficou claro que o cheque em branco que Bush havia dado aogoverno israelense deixou de existir".

"Não houve uma declaração conjunta, pois parece haver mais divergências do que pontos em comum", afirmou Eytan Gilboa, especialista em Relações Internacionais do Centrode Estudos Estratégicos Begin-Sadat.

Netanyahu e Obama conversam na Casa Branca
Netanyahu e Obama conversam na Casa Branca / Reuters

'Tenso e difícil'

O encontro de Netanyahu com Obama no início desta semana, foi definido pela imprensa local como "tenso e difícil". As principais questões discutidas pelos líderes foram o conflito israelense-palestino e o projeto nuclear iraniano.

Para analistas ouvidos pela BBC Brasil após o encontro, "algo mudou" na atitude do governo americano em relação a Israel, o país com o qual os Estados Unidos mantiveram a relação de confiança e de coordenação estratégica mais próxima no Oriente Médio.

Para Gilboa, "o interesse de Obama é demonstrar um certo distanciamento de Israel,pois ele quer que os países árabes o ajudem a resolver os problemas com oIraque e o Irã".

"O objetivo de Obama é iniciar um processo de reconciliação com o mundo árabe e islâmico. Ele estádesenvolvendo uma nova estratégia para o Oriente Médio, pretende criarnovas alianças e tentar se aproximar mais de países sunitas como oEgito, a Jordânia e a Arábia Saudita", disse Gilboa.

Confiança

A Casa Branca já anunciou que Obama irá visitar o Egito no próximo dia 4 de junho. Na ocasião, o presidente americano fará um discurso dirigido ao mundo árabe e islâmico.

Essa será a primeira visita de Obama ao Oriente Médio desde que assumiu o cargo, e Israel não está incluído no roteiro.

Segundo Gilboa, a confiança que havia entre os governos do presidente George W. Bush e dos premiês israelenses Ariel Sharon e Ehud Olmert "parece ter diminuído".

Para o cientista político Jonathan Rynhold, da Universidade Bar Ilan, "as circunstâncias políticas no Oriente Médio mudaram, gerando uma alteração nos interesses dos Estados Unidos na região e na atitude em relação a Israel".

"Durante as gestões de Clinton e de Bush, geralmente Israel e os Estados Unidos estavam do mesmo lado e tinham posições muito semelhantes", disse Rynhold à BBC Brasil.

"A exceção ocorreu durante a primeira gestão de Netanyahu (1996-1999), mas durante os governos de Itzhak Rabin e Ehud Barak havia uma grande proximidade com o governo Clinton, e tanto Ariel Sharon como Ehud Olmert estiveram do lado de Bush na luta contra o terror".

O analista também disse que o fato de os democratas estarem no governo e dominando o Congresso "dificultou mais ainda a visita de Netanyahu".

"Desta vez, Netanyahu não pode utilizar o Congresso para pressionar o presidente, como fez na época do governo Clinton, quando o Congresso era de maioria republicana", disse.

Em 1996, depois de ser eleito pela primeira vez ao cargo de primeiro-ministro de Israel, Binyamin Netanyahu foi ovacionado no Congresso americano em meio a divergências sobre o processo de paz com o então presidente Bill Clinton.

Segundo o repórter do canal 10 da TV israelense, Chico Menashe, a recente visita do premiê israelense ao Congresso foi muito diferente.

"Os senadores com quem Netanyahu tentou falar sobre a ameaça iraniana responderam com criticas à construção dos assentamentos", afirmou Menashe, que acompanhou a visitado premiê a Washington.

Já para Akiva Eldar, analista político do jornal Haaretz, "por enquanto as divergências são apenas no plano retórico".

"Obama parece mais determinado do que presidentes americanos anteriores a pressionar Israel a aceitar a solução de dois Estados e parar a construção de assentamentos nos territórios palestinos", disse Eldar à BBC Brasil.

"Porém, o importante será ver o que Obama fará caso Israel não ceda às suas pressões", acrescentou.

"A grande questão é se Obama pretende impor sanções sérias contra Israel se chegar à conclusão de que Israel representa um obstáculo a sua nova estratégia para o Oriente Médio", concluiu Akiva Eldar.

Irã

Além das questão palestina, as incertezas sobre o poderio nuclear do Irã também se tornaram em um foco de diferenças entre Washington e Tel Aviv.

O diretor da CIA, Leon Panetta, confirmou na quarta-feira que esteve recentemente em Israel para conversar com o Netanyahu sobre a questão iraniana, depois que a imprensa revelou que o presidente Obama havia enviado um emissário especial para advertir o governo israelense contra um ataque independente ao Irã.

Para Gilboa, "Israel não confia que os americanos realmente farão tudo para impedir o armamento nuclear do Irã e os Estados Unidos não confiam que Israel não vá realizar uma ação militar contra o Irã sem consultá-los".

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