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Para a autora Sue Grafton, a maldade do cotidiano é mais interessante

José Oliva. Barcelona, 4 fev (EFE).- A escritora americana Sue Grafton, responsável pela série de livros protagonizada pela detetive Kinsey Millhone, disse nesta terça-feira em Barcelona que, a partir de um ponto de vista literário, é mais interessante a maldade que emana das pessoas comuns, da vida cotidiana.

EFE |

Em entrevista à Agência Efe, Grafton destacou que tem interesse em mostrar que nem todos os vilões têm a aparência de malvados, "mas podem ser gente comum, seu vizinho ou a pessoa que se senta ao seu lado no ônibus, porque o comportamento de um assassino pode ser cotidiano, e, por isso, dão tanto medo".

A autora começou a série com "'A' de Álibi" para superar seu divórcio: "Tinha elaborado uma trama para matar meu ex-marido, e, como não podia fazer isso, decidi escrevê-la; além disso, decidi seguir os passos do meu pai, um advogado que, nas horas livres, escrevia ficção".

O que inicialmente era uma forma de superar um problema pessoal, com o tempo "acabou se transformando em minha vida e é a única coisa que sei fazer", confessa.

Grafton participa de Barcelona na semana do romance policial BCNegra com um novo livro, "'T' is for Trespass" ("'T' de armadilha", em tradução livre), no qual Kinsey Millhone investiga um caso rotineiro de uma batida de carros.

Como faz habitualmente, a escritora americana dedicou meses a investigar sobre as diferentes tramas debatidas em seu romance, neste caso os maus-tratos aos idosos, que, posteriormente, a leva a uma subtrama, o abuso de menores.

"O crime me interessa, o trabalho do detetive, e, por essa razão, cada livro tenta investigar o tema tratado", afirma Grafton, que se diz contrária a "esse subgênero do típico assassino em série, muito 'gore', no qual o escritor se deleita e o policial e o assassino conversam".

A "mãe" de Millhone prefere "mostrar cada vez uma história diferente, sem entrar nos detalhes mais escabrosos".

Embora a autora tente sempre entrar na pele do assassino para entender suas razões, "quis contar sua própria visão, e, por isso, introduzi seu ponto de vista".

Em contraste com os avanços tecnológicos utilizados hoje e que nutrem séries do gênero como "CSI", Kinsey Millhone pertence à categoria do "detetive clássico, que, como vive nos anos 1980, não tem celular, não usa internet e centra suas indagações na observação e o interrogatório".

Para a escritora, se for para se falar em romance policial, "a tensão deve se concentrar mais na maldade que habita no coração das pessoas do que nas novas tecnologias".

Sobre sua recusa a adaptar os livros ao cinema, Grafton recorreu ao senso de humor que tenta passar à personagem: "Preferiria vender meus filhos para o tráfico de mulheres para prostituição a ver meus livros transformados em filmes".

Ela justifica sua posição com o fato de ter trabalho 15 anos em Hollywood e de não suportar "essa gente, intelectuais, formados, mas que, quando têm seu trabalho nas mãos, o destroem e você perde o controle".

Sobre o futuro de Millhone, Grafton, que já está trabalhando na letra "U" da série, afirma que "a personagem viverá para sempre, mas eu, que quando terminar terei 80 anos, passarei a fazer crochê, passear e brincar com meu gato e meus netos".

"Eu sou Kinsey, ambas temos a mesma sensibilidade e visão do mundo, embora ela seja mais jovem, mais magra e mais corajosa. Nós duas nos divorciamos duas vezes, mas eu tenho filhos, e ela não".

A sombra alongada de Grafton também favorece que "Kinsey saia de mim e corra todos os dias, como eu fiz por 25 anos, mas ela eu deixo comer junk food, coisa que eu não me permito", afirma. EFE jo/db

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