Os combates entre o Exército do Paquistão e militantes do Talebã no vale de Swat, no noroeste do país, forçaram milhares de pessoas a deixar a região. Entre elas, está uma menina que está escrevendo um diário para a BBC sob o nome de Gul Makai.

Abaixo, ela conta a sua experiência em depoimento a Abdul Hai Kakar, correspondente do Serviço Urdu da BBC na cidade paquistanesa de Peshawar.

"Eu não deixei para trás só o Swat, mas também a minha identidade e a minha vida.

Na noite de terça-feira que nós ouvimos o som de artilharia pesada por todo lado. Nós todos deitamos no chão.

Nós achamos que a troca de fogo era entre o Talebã e o Exército.

A nossa casa fica perto do prédio que também serve de quartel do Exército na área. Quando há combates lá, nossa casa é atingida. É inevitável.

A minha família decidiu sair do Swat no dia seguinte. Nós recolhemos suprimentos para a viagem.

Nessa hora chegou a notícia de que tinha sido imposto um toque de recolher em Mingora. Nós ficamos presos por três dias.

Finalmente, quando o toque de recolher foi relaxado, nós colocamos as nossas coisas no carro e saímos da cidade.

Eu fiquei muito triste porque tivemos que deixar para trás a minha mochila da escola, com todos os meus livros.

Eu recitei versos do Corão e dei um sopro nele, para que ficasse protegido nos combates entre o Exército e o Talebã.

Uma grande multidão, como uma enxurrada de gente, estava andando nas estradas. Alguns estavam descalços, outros sem dupatta (um lenço que as mulheres usam). Alguns levavam pacotes e outros não carregavam nada.

Nós pensamos no início que a nossa situação era terrível, mas ficamos gratos depois de ver a cena nas estradas.

Eu vi gente que não tinha dinheiro tentando achar um jeito de sair de Mingora.

'Talebã do trânsito'
Quando eu estava deixando Mingora, eu vi o Talebã na área de Qamber.

Eles estavam dizendo às pessoas que passassem em fila. Elas atendiam imediatamente às ordens do Talebã.

O meu amigo e eu apelidamos estes membros do Talebã de "talebãs do trânsito".

Durante a viagem, o meu irmão estava muito bravo porque teve que deixar as galinhas dele para trás. Ele tinha insistido em trazê-las conosco mas a nossa mãe disse que elas morreriam no caminho.

Nós chegamos a Nowshera via Peshawar e depois fomos de carro por Mansehra para chegar a Bisham. Em Bisham o Exército impediu que seguíssemos adiante.

A minha avó estava muito doente e chorava de dor. Depois de muitos apelos, o Exército acabou permitindo que nós continuássemos a viagem.

Nós deixamos a área a pé e, depois de caminhar por um tempo, conseguimos tomar um ônibus. Agora estamos a caminho de Shangla.

'Bala na barriga'
Nós estamos em Shangla no momento, mas quando ouvimos sobre as condições das pessoas nos campos (de refugiados), nós agradecemos a Deus por estarmos vivendo com tanto conforto.

Eu tenho certeza de que a guerra não pode continuar para sempre e que um dia eu vou poder voltar e recuperar a minha vida e a minha identidade.

Não apoio nem o Talebã e nem o Exército - ambos estão nos tratando com crueldade.

O Talebã nos destruiu e o Exército está matando o nosso povo.

Quando nós estávamos deixando Mingora, uma das minhas parentes foi baleada na barriga quando estava levando os filhos dela para a cozinha para protegê-los do tiroteio.

O meu primo me disse que o Talebã tentou impedir no empurrão que mulheres de burka fossem para a estação rodoviária.

Várias delas caíram no chão.

O Talebã deveria parar de fazer isso porque, depois da implementação da Sharia (lei islâmica), as exigências deles foram atendidas. Por que eles estão fazendo isso agora?"

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