Paquistão acusa as forças internacionais no Afeganistão de matar civis

Pela primeira vez desde que começou a colaborar na chamada guerra contra o terrorismo liderada pelos Estados Unidos, o Paquistão acusou nesta quarta-feira as forças internacionais posicionadas no Afeganistão de ter violado sua soberania ao atacar um povoado no noroeste e matar 20 civis, entre eles mulheres e crianças.

AFP |

"Este tipo de ação é contraproducente e certamente não ajuda nossos esforços conjuntos para lutar contra o terrorismo", afirmou a chancelaria em uma declaração oficial.

"Pelo contrário, danificam as raízes dessa cooperação e podem alimentar o ódio e a violência que estamos tentando extinguir", acrescenta o texto.

Um comunicado assinado pelo governador da província da Fronteira Noroeste, Owais Ahmed Ghani, nomeado pelo governo de Islamabad, também denunciou a "agressão" contra a soberania do país.

"É uma agressão direta contra a soberania do Paquistão e o povo do Paquistão tem o direito de esperar que as Forças Armadas paquistanesas defendam a soberania de seu país e adotem as medidas necessárias para responder a tais ataques", afirma o texto.

"Civis paquistaneses inocentes, entre eles mulheres e crianças, foram martirizados", acrescenta a nota, que revela ainda que o ataque deixou "pelo menos 20 mortos".

Mais cedo, o governo informara que pelo menos 15 pessoas, incluindo vários civis, morreram no povoado de Masanika, fronteira noroeste do Paquistão, em um ataque de helicópteros da força internacional que opera no Afeganistão.

"Quatro helicópteros de combate atravessaram a fronteira e realizaram o ataque", disse à AFP uma autoridade paquistanesa, que pediu para não ser identificada.

"Helicópteros procedentes do Afeganistão estão envolvidos", confirmou à AFP Mowaz Khan, funcionário do distrito tribal do Waziristão do Sul, onde ocorreu o ataque.

Apenas as tropas americanas e britânicas que operam no sul do Afeganistão, dentro da força internacional, têm este tipo de helicóptero, destacaram as fontes.

Nos últimos meses, Islamabad protestou em reiteradas ocasiões contra disparos a partir do vizinho Afeganistão de mísseis das tropas americanas ou da Agência Central de Inteligência americana (CIA) contra talibãs ou milicianos da Al-Qaeda, presentes nas zonas tribais do noroeste.

Mas é a primeira vez que o Paquistão acusa diretamente as forças internacionais - e os Estados Unidos - de ter realizado um ataque direto contra o território paquistanês.

As versões sobre o incidente são contraditórias: segundo os serviços de segurança, os helicópteros teriam disparado diretamente contra uma moradia, enquanto o porta-voz do governo do distrito tribal do Waziristão do Sul, Mowaz Jan, afirmou que dos helicópteros desembarcaram soldados que dispararam contra os moradores enquanto revistavam suas casas.

Enquanto algumas fontes afirmam que o ataque foi realizado pelas tropas internacionais mobilizadas no Afeganistão, outras dizem que foram homens da Força Internacional de Assistência para a Segurança (Isaf), subordianada à Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan).

Porta-vozes de ambas as forças internacionais que lutam no Afeganistão contra os talibãs asseguraram à AFP em Cabul que não estavam a parte de uma operação em território paquistanês. Nos Estados Unidos, o comando central do exército fez o mesmo comentário.

Nos últimos meses, aviões-espião sem piloto (os drones) intensificaram os disparos contra zonas tribais nas quais, segundo os Estados Unidos, os talibãs afegãos e os milicianos da Al-Qaeda reconstituíram suas forças graças ao apoio dos talibãs paquistaneses.

Se a operação desta quarta for confirmada, o caso pode envenenar as relações com os Estados Unidos, que acusam o Paquistão de não se esforçar para eliminar a ameaça dos talibãs e da Al-Qaeda nessas zonas.

bur-gir/cn/fp

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