BRASÍLIA (Reuters) - O Brasil pode não ter convidado o presidente deposto de Honduras, Manuel Zelaya, a refugiar-se em sua embaixada em Tegucigalpa, mas abrir a porta a ele é uma aposta de alto risco que poderá prejudicar as ambições do país de liderança regional.

A decisão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de conceder refúgio a Zelaya na embaixada brasileira em Honduras empurrou o Brasil para o centro da crise, dando-lhe a chance de assumir um papel de destaque nos esforços de acabar com o impasse.

O risco, no entanto, é o Brasil se ver imerso em uma confusa disputa de poder na nação centro-americana, muito distante da sua esfera de influência sul-americana.

Um acordo entre Zelaya e o governo interino que o depôs parece distante após meses de fracassadas negociações e o risco de violência é real. A embaixada já se tornou palco de um confronto entre partidários de Zelaya e forças de segurança.

Uma pessoa morreu em confrontos entre a polícia e manifestantes pró-Zelaya nesta quarta-feira.

"O governo teve tempo para avaliar a situação e fez uma grande aposta", disse Rubens Barbosa, ex-embaixador brasileiro em Washington. "Compramos uma briga que não é nossa e agora o risco é ser pego no fogo cruzado. É uma batata quente".

Não há indícios de que o Brasil tenha ajudado Zelaya a retornar a Honduras na segunda-feira, três meses após ser deposto em um golpe. A maioria dos analistas concorda que seria auto-destrutivo para o Brasil, que tem sido um apoiador distante de Zelaya, investir em uma crise internacional sem solução.

Lula usou o palanque da Assembleia Geral da ONU em Nova York nesta quarta-feira para pedir que Zelaya seja restabelecido "imediatamente", um dia após o Brasil ter solicitado uma reunião de emergência do Conselho de Segurança para discutir a crise em Honduras.

O Brasil pode ter detectado uma oportunidade de assumir a liderança de uma crise na qual muitos governos da região consideram que os Estados Unidos não tiveram uma posição dura o suficiente para reverter o golpe.

"Quando eles deixaram o Zelaya entrar, eles estavam pensando que esta é a nossa chance de avançar, para fazer o Brasil um pacificador regional", disse Riordan Roett, diretor do programa da América Latina da Johns Hopkins Schools de Estudos Internacionais Avançados, em Washington.

Esta aposta pode valer a pena, se a renovada atenção internacional quebrar o impasse, afirmou.

CHANCES DE SOLUÇÃO MÍNIMAS

"Se eles chegarem às eleições com ambos Zelaya e (Roberto) Micheletti recuando, o Brasil poderia sair dessa bem", acrescentou Roett, referindo-se ao líder de facto de Honduras.

Há anos o Brasil procura se tornar um peso-pesado na diplomacia latino-americana e conquistar um assento permanente no Conselho de Segurança da ONU. Mas o país tem influência reduzida na América Central e pode não ter o poder necessário para conseguir uma solução negociada.

"Os Estados Unidos, o México, até mesmo Cuba, têm mais influência em Honduras do que nós", disse Marcos Azambuja, vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri), do Rio de Janeiro.

"Se um Nobel da paz como Arias não conseguiu avançar nas conversas, nossas possibilidades de ação são muito modestas", afirmou, se referindo à mediação fracassada do presidente da Costa Rica, Oscar Arias.

Zelaya parece determinado a retornar à Presidência e o Brasil se arrisca a se ver imerso em uma disputa interna de poder.

"Zelaya está fazendo um comício dentro da embaixada brasileira", disse o senador da oposição Heráclito Fortes (DEM-PI), sobre as entrevistas frequentes de Zelaya a emissoras de rádio e televisão.

Azambuja, do Cebri, concorda: "Estamos reféns das ambições eleitorais de Zelaya".

Atento à potencial instabilidade, Lula pediu a Zelaya que não provoque o governo de facto de Honduras e impeça a violência de seus partidários. Micheletti disse não ter intenção de enfrentar o Brasil ou invadir a embaixada.

Ainda assim, a perspectiva de um impasse prolongado e imagens diárias de uma embaixada sitiada não são bons presságios de uma vitória política para o Brasil.

"Isto provavelmente vai se arrastar e pode se tornar violento. É difícil ver uma situação de vitória", disse Barbosa.

(Reportagem adicional de Ana Paula Paiva e Natuza Nery em Brasília e Stuart Grudgings no Rio de Janeiro)

    Faça seus comentários sobre esta matéria mais abaixo.