Papa vai ao Reino Unido e admite falhas da Igreja nos abusos

Essa é a primeira visita de Estado de um pontífice ao país desde que Enrique 8º rompeu relações com Roma, em 1534

iG São Paulo |

O papa Bento 16 iniciou nesta quinta-feira em Edimburgo, na Escócia, uma histórica visita de quatro dias ao Reino Unido admitindo as falhas da Igreja para impedir os abusos sexuais contra crianças, que causaram uma enxurrada de denúncias contra os padres católicos em todo o mundo. A visita oficial e pastoral é a primeira visita de Estado de um pontífice ao país desde que Enrique 8º rompeu relações com Roma em 1534.

"A autoridade da Igreja não foi suficientemente vigilante", declarou o Sumo Pontífice. "A Igreja não foi suficientemente rápida e firme para adotar as medidas necessárias", admitiu o papa, acusado por grupos laicos de falta de reação perante o escândalo e, até mesmo, de ter acobertado alguns padres que cometeram abusos. As declarações foram feitas durante o voo entre Roma e Edimburgo.

"Essas revelações foram um golpe e uma grande tristeza para mim", completou. O avião com Bento 16, da companhia Alitalia, pousou às 10h20 (6h20 de Brasília) no aeroporto da capital da Escócia.

Em seu primeiro discurso oficial, pronunciado durante as boas-vindas dadas pela rainha Elizabeth 2ª em sua residência da capital escocesa, Holyroodhouse, o papa advertiu contra as "formas agressivas de secularismo".

"Hoje, o Reino Unido se esforça para ser uma sociedade moderna e multicultural. Nessa exigente tarefa, espero que possa manter seu respeito pelos valores tradicionais e pelas expressões culturais que formas mais agressivas de secularismo hoje já não dão valor ou até não toleram", disse o pontífice.

"Não deixemos que ofusque o fundamento cristão que sustenta suas liberdades", acrescentou Bento 16 falando para a rainha, que o recebeu oficialmente no início de sua visita.

Um dos objetivos dessa viagem é destacar o papel que as diferentes fés cristãs presentes no país, oficialmente anglicano, podem desempenhar em uma sociedade cada vez mais secularizada.

Em seguida, o papa percorreu cinco quilômetros em seu Papamóvel pelo centro da cidade, acenando para a multidão. Essa é uma das poucas oportunidades que terão os não católicos, ou seja, 90% dos cerca de 60 milhões de britânicos, de ver o papa.

À tarde, seguindo os passos de seu antcessor João Paulo 2º em sua viagem pastoral de 1982, presidirá uma missa ao ar livre no parque Bellahouston de Glasgow ante 60 mil peregrinos que pagaram "uma contribuição" inédita de 20 libras para poder assistir.

Susan Boyle, a ex-cantora de igreja escocesa que causou furor na internet depois de sua participação num reality show, e um coro formado por 800 pessoas farão um show prévio à missa. No final do dia, Bento 16 irá para Londres, onde prosseguirá com a viagem também destinada a melhorar as tensas relações que Roma mantém com os anglicanos há quase cinco séculos.

Vítimas de abuso

Grupos que reúnem vítimas de abusos cometidos por membros da Igreja Católica na Grã-Bretanha afirmaram, nesta quinta-feira, que o reconhecimento do papa Bento 16 de que a Igreja administrou mal a situação não é suficiente.

A declaração foi feita momentos depois de Bento 16 ter afirmado que ficou "chocado" ao tomar conhecimento dos escândalos, e dito que sentiu "tristeza", pelo fato de a Igreja não ter sido suficientemente vigilante e rápida para tomas as “medidas necessárias”.

“Não esperava que ele falasse nada menos do que isso”, disse à BBC Brasil Peter Saunders, diretor-executivo da Associação Nacional para Pessoas Abusadas na Infância (Napac, na sigla em inglês). Para Saunders, que sofreu abuso por parte de dois padres quando criança, o papa deve “apoiar suas palavras com ações” se quer recuperar a credibilidade da Igreja Católica.

Segundo ele, a Igreja Católica deve afastar definitivamente todos os padres envolvidos com casos de abusos e oferecer apoio às vítimas.

Uma associação de grupos de vítimas pediu um encontro com Bento 16 durante seus quatro dias de visita ao Reino Unido iniciados nesta quinta-feira, mas teve a solicitação negada. O grupo pretendia entregar ao papa um livro com testemunhos de vítimas de abusos sexuais.

Segundo o papa, as vítimas de abuso cometidos por padres são a principal prioridade da Igreja hoje. Em um encontro de vítimas realizado no último fim de semana, em Londres, eles já haviam pedido que a Igreja oferecesse ações concretas.

“Muitos sobreviventes têm que viver com medo, vergonha e culpa, porque quando eles relatam (os casos) eles são levados a se sentir como párias, desleais, agressivos, mentirosos que querem dinheiro e assim por diante”, afirmou Margaret Kennedy, fundadora do grupo Sobreviventes de Abusos Sexuais de Sacerdotes.

“Não queremos mais palavras do Vaticano, queremos ações. As ações não aconteceram – decisões concretas e compreensíveis sobre quem vai cuidar dos sobreviventes de abusos de padres. O que eles vão fazer para reparar nossas vidas?”, questionou.

*Com AFP e BBC

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