Juan Lara. Luanda, 20 mar (EFE).- Os moradores de Luanda foram em peso hoje às ruas para receber o papa Bento XVI, que disse que chegou o tempo da esperança para a África, mas que é necessário acabar de vez com a corrupção e que a comunidade internacional respeite a promessa de destinar 0,7% de seu PIB para ajudar o desenvolvimento do continente.

O papa foi recebido calorosamente por dezenas de milhares de angolanos, que o aclamaram do aeroporto até a cidade, correndo atrás do papamóvel.

O dia de hoje foi declarado feriado para permitir que a população recebesse "dignamente" o pontífice, que visita a capital angolana 17 anos depois da visita de seu antecessor, João Paulo II, em 1992.

Enquanto João Paulo II visitou Angola em um raro momento de calma no meio de uma guerra civil que deixou um país destruído, hoje, Bento XVI encontrou uma nação considerada a de maior crescimento da África, sendo a principal exportadora de petróleo e riquíssima em diamantes.

Apesar disso, 70% de sua população vive na miséria, com serviços muito deficientes de educação e saúde e 17% de analfabetos.

Antes de Luanda, o papa Joseph Ratzinger passou por Yaoundé, a capital de Camarões.

Após ser saudado pelo presidente e pela primeira-dama angolanos e receber honras militares, em seu discurso de boas-vindas, ele defendeu "uma sociedade de justiça, paz e solidariedade", baseada na caridade e no perdão recíproco e encorajou os angolanos "a não ceder diante do mais forte".

O papa lembrou que vem de um país -a Alemanha-, "que conheceu a guerra e a divisão entre seus habitantes devido a uma ideologia devastadora e desumana (em referência ao nazismo) que, sob a falsa aparência de sonhos e ilusões, colocava nos homens o jugo da opressão".

"Por isso, (vocês) podem entender o quão sensível eu sou ao diálogo entre os homens como meio de superar qualquer forma de conflito e fazer de cada nação uma casa de paz e irmandade", acrescentou.

O pontífice ressaltou em discurso ao presidente, José Eduardo dos Santos, e ao corpo diplomático, que a paz começou a fincar raízes em Angola e que "chegou o tempo da esperança na África".

"Vocês podem transformar o continente, libertando seu povo do flagelo da avidez, da violência e da desordem, levando-o ao caminho de uma moderna e civil democracia", afirmou o papa.

Bento XVI acrescentou que uma democracia exige "o respeito e a promoção dos direitos humanos, um Governo transparente, uma magistratura independente, uma comunicação livre, uma administração pública honrada, uma rede de escolas e de hospitais, e a firme determinação de acabar de uma vez por todas com a corrupção".

Bento XVI defendeu uma "ética da economia" e assinalou que para o desenvolvimento econômico e social da África "é urgente" coordenar esforços para enfrentar diversos problemas.

Entre eles, o papa citou a mudança climática, a plena e total realização dos compromissos da rodada de Doha, além do cumprimento da promessa dos países desenvolvidos de destinar 0,7% do Produto Interno Bruto mundial em ajuda ao continente.

"Esta ajuda é hoje ainda mais necessária devido à crise financeira mundial. Espero que a crise não sacrifique as ajudas", ressaltou o papa.

Bento XVI voltou a defender à família, como a "base da sociedade", e denunciou a "opressora discriminação" sobre as mulheres e jovens, além da "inominável" violência e exploração sexual das mesmas, que causa tantas humilhações e traumas.

Em seu discurso, o papa também atacou o aborto, afirmando que é uma "ironia" o fato de ele ser incluído como uma ação de "saúde materna".

"Que desconcertante é a tese dos que consideram que a supressão da vida seria uma questão de saúde reprodutiva", ressaltou.

Em um país onde a miséria atinge 70% da população, o papa reiterou a opção da Igreja pelos pobres e garantiu que ela "fará o possível para ajudar as famílias, incluindo as afetadas pelos trágicos efeitos da aids", e para promover a igualdade entre homens e mulheres, sobre a base de "uma harmoniosa complementaridade".

O primeiro dia do papa em Luanda se encerra com uma reunião com os bispos de Angola e São Tomé. EFE jl/jp

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